terça-feira, setembro 19, 2006

Liga Española El Bosque

por Nuno Virgílio

Com uma frente a terminar um longo período de tempo quente e tectos altos, vários pilotos alinharam para a (possivelmente) última prova pontuável para o ranking deste ano. Carlos "Brazuca", Paulo Silva, Nuno Virgílio e António Fernandes "Tonecas" juntaram-se a João Brito e Ivo, do Algarve, que chegaram primeiro e orientaram o alojamento, numa noite em que choveu torrencialmente e houve inclusivamente enxurradas e inundações na zona de destino. Mais tarde chegou o resto da comitiva e acabámos por ser um grupo bastante numeroso.
Partimos rumo à Andaluzia, num bólide alucinante.. Chegámos a ser cronometrados a 112km/h ( a descer, e desengatado, claro)
O primeiro dia foi para reconhecimento local, com uma caminhada por um canyon da zona. A geografia local é bastante interessante, alternando planície com cristas montanhosas a rondar os 1600m. As povoações em estilo arabesco penduradas nos penhascos ou encaixadas nos vales. Um local a visitar com mais tempo.
Durante toda a competição houve várias tentativas de ataques terroristas nos veículos da organização, mas não se conseguiu determinar a substância tóxica utilizada, provavelmente gás Sarin (o Team Feijoada nega qualquer responsabilidade ou envolvimento na questão). A organização esteve, no geral, bem, havendo ofertas de chupitos e regallos nos bares da zona, um jantar de cair para o lado, no Sábado, e tudo a funcionar com relativa eficácia (em todo o caso não comparável ao nível das nossas provas: não havia ninguem no golo á chegada dos 1ºs pilotos, as recolhas a demorar 2 e 3 horas, etc)

1ªmanga- Sábado: descolagem Oeste em Algodonales, com um precurso de 40km. Instabilidade q.b. com muitos cúmulos e algum vento, mas tecto baixo, a dificultar. A primeira parte da manga, pôs muita gente no chão, numa zona de pouco relevo. Houve algumas passagens mais difíceis, onde demorei a subir mas finalmente lá segui colado á nuvem, a 70km/h. O vencedor do dia foi o Miguélon, numa Omega 7 de série. Eu terminei em 4º, 3 min depois, e tivémos Carlos Brasuca por perto tal como o Paulo Herculano.
2ª manga: descolagem de El Bosque, com pouco espaço para os cerca de 70 pilotos presentes. O vento forte de Norte a dificultar a progressão e a fazer inclusivamente que grande parte dos pilotos não descolasse. O Américo foi o melhor do dia, ficando a cerca de 3 km do final, com o Miguel Martinez - Miguelito (que viria a vencer a prova) a ficar perto. O dia valeu 150 pts..
3ª manga: 37km com vários zig-zags na zona de Algodonales e golo em El Bosque. A primeira parte muito difícil, com a térmica a funcionar mal e vento escorrido na encosta. O cenário de vento de costas e remoinhos na descolagem a fazer lembrar o Larouco. Muita gente descolou já depois do start, o que fez com que houvesse vários grupos dispersos por todo o percurso. Aqui os abutres deram umas ajudas a localizar as térmicas, e embora muita gente ficasse pela distância mínima, houve 8 pilotos no golo, com o Rui Nascimento a ganhar e a provar continua a ser um dos melhores. Eu acabei por fazer uma boa recuperação e consegui apanhar e chegar á frente dos meus adversários directos na classificação geral (Miguelito e Reina), acabando a manga em 4º, e a competição em 2º.
O encerramento foi lamentável, com a classificação geral do Open FAI a ser completamente desprezada e a haver entrega de prémios apenas para os melhores lá da rua deles, incluindo tempo de permanência e precisão de aterragem, no lazer.
Não justificaram o handicap de 0,75 que têm para as nossas provas, e penso que ainda estão a tempo de reconhecerem o valor do parapente Português, que como vem sendo comum, deixa marcas de qualidade superior nas provas ibéricas.

segunda-feira, agosto 21, 2006

76 km do Arrimal para SE -> Rebocho, 19.08.06

por Nuno Virgílio

Pois é, eu achei que não valia a pena ir novamente pá Serra da Estrela. O potencial do dia pa XC era bom, mas a direcção do vento e o tecto baixo condicionavam um bocado a coisa. Temos bastantes alternativas na zona pa este tipo de condições e o problema foi mesmo optar.
O Arrimal tem uma recolha fácil e rápida em caso de marreca, e pa trás é logo a planície do Ribatejo, embora os primeiros km sejam densamente arborizados e sem grandes possibilidades de aterragem (aliás tal como a parte final do voo, já bastante depois do Tejo).
A outra alternativa seria o Alqueidão da Serra, que tb bomba
bem, a parte inicial é muito mais segura e já provou funcionar bem anteriormente. No entanto as eólicas logo ali, com o tecto baixo e algum vento que se previa, tornaram a escolha óbvia.

O Gonçalo Velez ligou-me na 6ª e combinámos encontrar-nos por volta do meio dia. A esta hora já estavam os ciclos bem definidos, cúmulos por todo o lado, embora em demasia, havia muita sombra.
Descolámos e aguentámos num termodinâmico a ladeirar, até apanhar o canhão lá pa cima. Na primeira térmica não subi logo ao tecto e como o Gonçalo não apanhou nada, resolvi voltar pá encosta e esperar por ele. Além disso achei que seria melhor esgotar a ascendente e sair na nuvem.
Assim foi: 1300 na base, a saída a direito deu mais 200 metritos dentro da gaja, pa lavar a asa que tinha alg
um pó ;)
A vista da saída pelo meio da nuvem deixa-me sempre embasbacado, havia alta visibilidade e o cenário era fantástico. Mais á frente consegui distinguir perfeitamente á esquerda a Serra de S. Mamede-Marvão e á direita a Arrábida!!, via-se o país de "costa-a-costa"!!!
Lá segui de nuvem em nuvem, estava tudo marcado mas era difícil encontrar o núcleo das ascendentes e a esta hora os alinhamentos ainda não estavam bem definidos. Lá atravessei o Tejo, por cima de Santarém, Almeirim e por aí fora, com alguns pássaros a ajudar (águias e cegonhas) O tecto foi subi
ndo mas as transições eram sempre longas, baixas e o terreno começou a complicar.
Poucas estradas, poucas aldeias e muitas árvores.
Estive quase no chão numa aldeia, onde já tinha escolhido o campo de segurança e ouvia os miúdos aos gritos, mas o boianço levou-me a um canhão bem potente e fui de novo lá para cima. Entretanto perdi o núcleo e desconcentrei-me. Não fui á nuvem desta vez e o erro foi fatal. Última transição e pró chão, ainda apanhei uma bolheca, já
muito baixo, mas não arrisquei pq n tinha alternativas de segurança, só árvores. Aterrei ás 15:30.
Resultado: 76km em 2horas de vôo!
Não está mal mas o dia
tinha potencial para muito mais, fui totó. Esteve um cúmulozaço bem escurinho a bombar durante uma hora no enfiamento do campo onde aterrei...
Mais tarde pareceu-me que o vento mudou ligeiramente de direccção e aumentou de intensidade pois finalmente notavam-se as estradas bem definidas e mais espaços azuis.
Em dias destes é fundamental não perder a paciência e assegurar tudo até ao tutano, manter-se no ar, de preferência alto. Com esta média e a aproveitar o dia até ao fim... bom, é só fazer as contas ;)

quarta-feira, agosto 09, 2006

Azinha-Castelo de Vide, 106 km, 09.08.2006

por Paulo Nunes

A competição ( Dutch Open ) acabou no sábado, e para partir a viagem de carro ao meio, decidi passar pela Azinha e tentar fazer um pequeno voo no domingo antes de regressar a casa e a mais uma semana de trabalho;
Mas a verdade é que o dia acabaria por me contemplar com umas condições fantásticas que por mais exausto que eu estivesse não me podia dar ao luxo de desperdiçar Eu, o Nuno Virgílio, Eduardo Lagoa, Gonçalo Velez, Carlos Fonseca (manhosos) descolámos mais tarde que muitos pilotos que já voavam pelos vales da Azinha, quando a térmica já rompia bem a inversão dos 1500, descolei e apanhei logo uma que me meteu acima dos 2000, até aos 1500 a coisa estava mesmo mexida , muita porrada, alguns fechozitos, dava para deixar a marca de uma moeda de 2 euros (mas em castanho) no cuecame. Assim que me apanhei perto dos 2200 achei que estava na hora de ir andando para o plano, lá vou eu a caminho da Lardosa, mas assim que passo a encosta da Covilhã fiquei um pouco “barata tonta” e lá tentei um local que me pareceu que iria pingar, um monte ao lado de um aglomerado de casas com um lagozito perto, tinha de dar, mas eu não estava confiante ( e isso é mau) ainda assim lá estava uma bolheca para me deixar subir novamente perto dos 1800, olho para a Covilhã e vejo o Carlos Fonseca a passar e a encontrar uma bela térmiconaça, vou direito a ele sem demoras e quando lá chego já ele estava no tecto e eu baixinho, mas como a coisa ainda bombava não tardei a ficar ao lado dele, olho para trás e vejo que o Eduardo vinha direito a nós, decido esperar por ele, uma excelente companhia de Cross, o Carlos mais impaciente comete o erro de se lançar á frente para o plano, sozinho e não tardou a marrecar passados uns 7-8 kms dali ( cerca de 25-30 da azinha ), eu fiquei no engonhanço e a esperar pelo Edu que rapidamente subiu uns 1000 metros e ficou ao meu lado, arrancamos os 2, ele á frente e eu ( á mama ) até á crista seguinte ( as cristas estavam a funcionar ) ainda bem que esperei, estava numa de apostar no plano tb e iria lixar-me, o Edu faz o favor de me dar boleia até á Gardunha ( eu no encalce dele, sempre á mama ), quando chegamos á Gardunha achei que já estava a abusar da mama e decidi tentar ser útil e apesar de mais baixo sigo sem ir á boleia, a tentar encontrar também uma térmica, para não me sentir tão parasita oportunista, lá consegui desencantar uma, mas o Edu nem me ligou, ele encontrou logo um núcleo melhor e mantinha-se mais alto que eu, olho para a barragem da Lardosa ( era ali o golo ) numa das mangas da Azinha que estão definidas pelo mestre Baía, decido arrancar em direcção a esse objectivo com o intuito de aterrar, eis se não quando vejo o Nuno Virgílio ao meu lado esquerdo em direcção á Lardosa, mas já numa térmica á maneirex tento ir agarra-la, mas chego lá já MUITO baixinho, lá tento lutar para subir e agora motivado a voar mais, pois via o Edu a ir no encalce do Nuno e os 2 a subirem bem, inicialmente penso que eles estão a engonhar a esperar por mim, mas depois apercebo-me que não, que eles iam seguir sem a minha companhia ( buááá ), então pacientemente subo até aos 2500 ou mais e sigo viagem, a sobrevoar a A23, vejo o Edu a aterrar mesmo ao lado da estação de serviço de Castelo Branco, mas como apanho nova térmica que me leva acima dos 2500 não tive duvidas, era para seguir viagem, então sobrevoo Castelo Branco acima dos 2000, e bem abaixo dos 1000 andava um pequeno avião ( avião = é uma merdice que precisa de motor para voar! ) vou seguindo viagem e o vt vai rodando a N e mais tarde NW, sobrevoo o Rio Tejo e começo a identificar o Marvão lá á frente, ao final de quase 5 horas de voo, estava exausto, sem ter posto protector solar, doía-me o focinho do escaldão, começou a faltar-me capacidade física e consequentemente mental para voar mais hora e meia de dia que ainda daria para voar e assim, acabei por nem enrolar a ultima térmica que passei e lá “marrequei” ao fim de 106 kms, numa terra chamada Póvoa e Meadas, ao lado de Castelo de Vide. Ainda tive oportunidade de partilhar uma térmiquita com um abutre já no final do voo, mas o gajo bazou, nem deu para o seguir pois ele foi na direcção errada ( coitado devia estar sem GPS ). Aterrei ao lado de uma estrada ( claro ) com muito cuidado com os fios eléctricos, é do pior, aterrar exausto, se não nos aplicarmos a fundo dá merda mesmo no final !!!!!!!!! Um jeep com um dos bombeiros mor de castelo de vide, disponível para me dar boleia, e agora é que vem o mais incrível : 20 minutos depois de ter aterrado estava com uma cerveja na mão e a minha carrinha e o meu amigo Saiote ao meu lado!!!!!! Não é que este nosso companheiro veio andando da Azinha, ele no meu carro e a Iva no deles, sempre na direcção de Nisa, pois supôs ( e MUITO BEM) que eu estivesse por estes lados. Muito obrigado mais uma vez por esta recolha, que nem na Fonte da Telha é tão rápida, quanto mais ao final de 106kms.
Soube mais tarde que o Nuno Virgilio tinha aproveitado por completo o dia de voo e como piloto de excelência que é fez 160 kms. O Gonçalo “Veloz” fez um belo voo de 96 kms (parece que aterrou para os lados de Mação), o Edu cerca de 60kms,o Carlos Fonseca 25 kms, e bastantes pilotos voaram bastante pelos vales de verdelhos e da amoreira, enfim, um grande dia de voo a partir de um dos locais mais potentes do país.
Neste link podem visualizar algumas fotos dos últimos 15 dias de voo(*): http://paulonunes15.myphotoalbum.com/slideshow.php?set_albumName=album01
Até breve

Paulo Nunes
09.08.2006


(*) S
eleccionei esta:

Azinha-Estremoz, 159 km, 06.08.06

por Nuno Virgílio

Grandes voos no Domingo (Ago 6), apesar do vento Norte-Nordeste, que todos sabemos turbulento e desagradável de voar q.b. Ao sair do interior da serra a coisa acalmou, embora também inicialmente as condições ainda não estivessem completamente organizadas.
Tecto bastante mais baixo que na previsão: a minha média foram os 2200m, com uma ou outra a subir um pouco mais, e na parte final do voo (últimos 40km) nunca passei pra cima dos 1300m. Pelo rádio estava em contacto com o Paulo Silva que tb fez um belo voo a partir de Mação e onde reportou tectos de 2900.
O combinado entre os pilotos na descolagem foi tentar a manga para a barragem de Lardosa, perto de Castelo Branco, e vários conseguiram. Ao chegar apanhei a melhor térmica do dia, que me distanciou do Edu e do Paulo Nunes, e lá continuei sozinho (Confirma-se o mito que no golo sobe-se sempre).
Já conhecia parte da rota, de um voo no ano passado, onde fikei perto de Nisa, e lembrava-me das estradas com longas rectas e
planície aberta a perder de vista. Muito seguro e fácil para recolhas, forcei a rota para lá, pq não me apetecia andar kilómetros debaixo dos 40º que estavam, em caso de marrecanço.
De novo confirmei o visual de cortar a respiração por cima das Portas do Ródão, onde um grupo de abutres se me juntou. Um deles fez-me o especial favor de largar uma cagadela em cima, por isso afastei-me deles entre insultos e gargalhadas - parecia um malukinho, a mandar vir com um bando de pássaros, como se o ar fosse o meu elemento natural e eles estivessem ali a mais
A partir daí foi sempre "segue-segue, recto, num-bira". Com a tal situação de não subir muito, mas tb não descer, parecia deslizar numa almofada de ar quente - à excepção de um ponto baixíssimo por volta do km 120, onde estive quase a aterrar num campo cheio de touros.. acho que isso foi a motivação pa subir de novo, e lá fui.

Deu pa confirmar várias teorias clássicas co cross-country:
-O sotavento das aldeias funciona sempre
-As barragens são tiro certeiro
-As florestas, ao final do dia, não falham, com a restituição
-Os campos com touros tb bombam bem (ou não...)

Resumindo, esgotei o dia, aterrei quase ás 20:00h e pouco depois de caminhar até á aldeia mais próxima (st. Amaro, já bastante perto de Estremoz), anoiteceu. Penso que saindo uma hora, talvez antes, mais cedo, num dia com nuvem, seja possível um vôo realmente grande, por esta rota, que me parece muito boa mesmo, pelos acessos e povoações bastante próximas umas das outra. Évora é logo ali!!
-A "travessia dos 3 rios" foi cumprida em parte, uma vez que no sábado não deu pa grandes esticanços... o Zêzere e o Teja já cá cantam, o Douro fica prá próxima.
-Mudei um pouco a ideia que tinha dos Alentejanos: ninguém deu boleia a um pobre piloto, exausto, transpirado e com uma mochila enorme e pesada ás costas... mas radiante e feliz da vida ;)

Ainda não consegui pôr o voo na LigaXC, mas podem entretanto ver aki os detalhes:
http://www.paraglidingforum.com/modules.php?name=leonardo&op=show_flight&flightID=3225

Nuno Virgílio
08.08.06

sábado, agosto 05, 2006

Redinha-Tancos, 55 km


por Roque Santos

No passado dia 5 de Agosto efectuei um voo de distância entre a Redinha e Tancos. A distância em si, 55 Km linha recta e 60 Km OLC, não tem nada de especial se a comparar-mos com as distâncias efectuadas pelos nossos "tubarões" do XC, mas, para mim teve um gosto especial por ser o meu próprio recorde pessoal e pelas condições em que o mesmo se realizou, ou seja completamente a solo, sem qualquer preparação prévia de recolha e assistência e sem conhecimento prévio do trilho e do mapeamento das térmicas utilizadas.

A Redinha é um local de voo que, juntamente com a Azinha passe o exagero, se destaca completamente de todas as outras que conheci neste país, que não são muitas, devo confessar.
Se na Azinha se pode voar e praticar XC como se faz lá fora nos Alpes e outros locais típicos de alta montanha. Podemos também aí sentir o que são as grandes térmicas que nos podem levar rapidamente da descolagem a alguns milhares de metros de
altura como se fossemos autenticas "balas de canhão". Podemos também marrecar quando, na maior parte das vezes por nabice, entramos numa descendente irrecuperável e aterrar numa encosta qualquer próxima do skiparque, como já a mim me aconteceu.
Na redinha é diferente a dimensão do voo. É um local pequeno, com pouco desnível (cerca de 150 m), orientado a NW. Aqui a particularidade é que há quase sempre sustentação com ventos fortes ou fracos, quer seja térmica, termodinâmica ou apenas dinâmica ou mesmo com ventos lisos tal como na praia. Dependendo da hora de voo e das condições do dia. Quando há calor e o vento NW ou W se associa, não temos os tiros de canhão da Azinha mas temos mais um tipo de tiros de metralhadora pesada que não é mais que o vento associado à térmica, ininterruptamente. O vento térmico sopra então furiosa e até temerosamente na descolagem. No ar faz-nos subir e descer como numa montanha russa ou pior ainda como se estivéssemos dentro de uma máquina de lavar, por vezes sem conseguir atingir alturas que nos permitam pôr rapidamente a salvo.
A não ser que o dia seja muito bom, é difícil fazer mais que 400/500 metros acima da descolagem.
Outros dia há que até se conseguem fazer uns tectos jeitosos na ordem dos 800 a 1200 metros que dão para sonhar com outros voos mais distantes.
O local também não é por si só muito convidativo ao XC por, as supostas trajectórias de voo sobrevoarem quase sempre zonas que, ou por serem muito arborizadas ou por serem muito irregulares ou por ausência de espaços abertos são quase sempre pouco adequadas e convidativas à aterragem inopinada.
Foi num destes dias que me propus a efectuar um voo de distância. Térmica azul, o vento estava NW fraco, a temperatura rondava os 37º. O tefigrama indicava um teto previsto para 2500 m com um bom gradiente térmico.
Primeira tentativa cerca das 14H00. Aproveitei a influencia da brisa de este e quando o NW não se fazia sentir ainda, tentei uma descolagem na esperança de encontrar um térmica suave, E encontrei de facto mas estava "invertida", pelo que quase empinheirei directamente nas árvores que ficam mesmo por baixo da descolagem. Passei com os pés a rapar nas mesmas e lá consegui aterrar à tanga na nova aterragem que apesar de tudo ainda deve distar para aí 1,5 km, com as curvas todas é claro, da descolagem.
Sem qualquer assistência, abandonei o material e desloquei-me a pé à descolagem. Trouxe o carro para baixo, carreguei de novo o material e desloquei-me de novo para a descolagem.
Eram cerca de 15h15 quando fiz a derradeira tentativa. O vento NW e a térmica à mistura já faziam sentir os seus efeitos na rampa. Com muito esforço lá consegui atingir os 800 m numa térmica esquisita que teimava em deslizar como uma cobra ao longo da crista. Atingido o teto útil derivei sempre sobre a crista do monte à sorte e ao que desse e viesse. O vário começou então naquele triste e lamuriento som de perda que não mais parava, até que mesmo ao final da pequena cordilheira, já com os pés quase a tocar no chão, encontrei as primeiras bolhas térmicas consistentes como até então nunca tinha sentido.
Subi, subi e, qual o meu espanto quando olho para o Flymaster e vejo mais de 2000 metros de altura. Isto já próximo da vila de Ansião. Com teto atingido a cerca de 2500 metros, continuei a derivar em direcção a Alvaiazere. Passei a perder sobre as três eólicas que estão no monte anterior à vila e, ainda sempre a perder, apontei em direcção entre a vila e a descolagem no intuito de aterrar na vila se estivesse demasiado baixo ou passar sobre a descolagem de Alvaiazere se ainda tivesse margem de manobra. Optei pela segunda alternativa e em boa hora o fiz. Passada quase toda a rampa de Alvaiazere a baixa altura e a perder, já mesmo no final consegui engatar mais uma térmica consistente que me levou a mais de 2500 m. Segui em direcção a Tomar. Ao longe via já o rio Tejo e a cidade do Entroncamento. Não havia quaisquer nuvens no céu, mas um forte cheiro e uma ténue nebelina provenientes da fumaça dos incêndios que, havia alguns dias, lavravam na região de Proença A Nova, arranhavam-me os brônquios e a garganta e propagavam-se no céu, tapando parcialmente os raios solares e fazendo baixar a temperatura ao nível do solo, matando assim as térmicas, muito antes das horas que um dia de calor intenso como este faria prever.
Próximo de Tomar, cerca das 17H00 e a perder altura de novo preparei-me para aterrar junto do RI15, quartel onde prestei serviço pouco antes de abandonar a tropa. Quando, mesmo à vertical do dito quartel, sinto começar a soltar-se uma suave e bem vinda térmica que foi o suficiente para me elevar a cerca de 1500 metros e foi quanto bastou para percorrer o lanço até junto à ex Base Aérea Nº3 onde me fui encontrar com os meus companheiros pára-quedistas em actividade que ficaram incrédulos quando lhes disse e mostrei no GPS a distância e alturas percorridas, mostrando eles alguma dificuldade em acreditar ser possível voar assim sem qualquer ajuda motorizada. Também eu pensava assim mas era num passado recente.
Contacto com os meus amigos das Asas de Pombal Daniel que junto com o Vítor, me fizeram a recolha.

No final não deixei de lembrar, alguns, "os Bons" amigos, com quem partilhei momentos de voo e adquiri conhecimento ao longo dos cerca de 3 anos e meio que tenho de prática de parapente, para poder agora aventar-me a estas fantásticos e inesquecíveis aventuras, de onde destaco, em particular, o Vítor Baía que me facultou, praticamente de borla, um manancial de informação e formação, na área da técnica de voo em térmica e em particular na meteorologia, de valor inestimável que contribuíram fortemente para o melhoramento da minha técnica e performance e para o incremento da segurança de voo.

Dados do voo:
Duração do voo 2:29:47
Distancia linha recta 55.90 km
Media 22.39 km/h
OLC Distancia 60.49 km (24.23 km/h)
Max velocidade 91.65 km/h
Max vario 11.5 m/sec
Min vario -4.5 m/sec
Max altitude (ASL) 2903 m
Altitude da descolagem (ASL) 372 m
Min altitude (ASL) 153 m

Roque Santos


"Encontra alguém que fique satisfeito com a tua felicidade e encontrarás um amigo"

segunda-feira, junho 05, 2006

Montanchez Report






por Paulo Reis

No Domingo, quatro parapentistas esperançados na possibilidade de um voo jeitoso, combinámos uma saída prevista de Lisboa às 8.00h. Fizemos 300 kms de carro em direcção a Montanchez, um local que nenhum de nós conhecia para participar na prova da
Liga Extremeña y Campeonato de Extremadura.
O Gonçalo Velez tinha ido para La Parra no dia anterior e disse-nos que a prova desta Liga ia partir deste desconhecido local (um pouco mais distante) no Domingo. O Gonçalo já tinha feito um voo de mais de 30kms no Sábado a partir de La Parra (a 3ª melhor distância do dia), tendo dois Espanhóis feito cerca de 90 kms.
Partimos de Lisboa depois de atrasos diversos e atribulações! O Lacerda perdeu a chave da moto e estava a
stressar pois estava com a chamada termiquite (fome de térmica) e não tinha meio de transporte! Lá resolvemos a cena, atravessámos o rio, encontramo-nos como o Eduardo Lagoa e seguimos viagem no "carro maricas" que abre as portas quando o dono chega perto. É do tipo animal doméstico que reconhece o dono!
Chegámos a Montanchez, inscrevemos-nos na Liga, preenchemos uma catrefada de papeis de inscrição (ou seja nome, e-mail e telefone num "Post-it" amarelo), decarregámos as balizas num banco debaixo de uma arcada, fomos bem acolhidos como sempre pelos nossos amigos espanhóis e seguimos nas carrinhas deles para a descolagem!
Defeniu-se uma manga em direcção a Cáceres e golo a 60 kms numa povoação que não me recordo do nome! Descola primeiro o Super Driu e anda a sofrer bastante tempo com dificuldade em enrolar "rôlos" de jeito! Emseguida descolam mais dois fusíveis e as coisas começam a compôr-se.Descolei junto do Eduardo Lagoa e subimos até aos 2100m e "amandá-mo-nos" para trás do monte! Os primeiros 5 kms foram difíceis e os "rolos" eram muito turbulentos, estranhos e não se conseguia centrar nada de jeito. Descolei stressado com a asa, pois este era o meu segundo voo em térmica com uma asa que não conheçia e tinha levado umas valentes estaladas (assimétricos e fronta
is na tromba porreiros para me borrar todo) naAzinha no fim de semana passado e estava apreensivo! Aumentei e redistribuí o lastro que tenho de alombar comigo e ajustei a selete depois do voo da Azinha e agora parece uma asa diferente! É fantástico como pequenos ajustes podem fazer toda a diferença do mundo! E como uma asa passa de besta a bestial em poucos dias! Ehehehe!!! Estava nitidamente com um problema de pouco peso!
Aos 10 kms estive baixo mas vi um Dust e fui caçá-lo a segurar o Tchan! Andava ainda a tentar perceber a asa e a senti-la! Subi e encontrei-me com o Eduardo e seguimos rumo a Cáceres. Antes de Cáceres, depois de enrolar no sotavento de um monte, tomámos opções diferentes. Ele seguiu pela direita de Cáceres e eu pela esquerda, pois via-o a cair que nem uma pedra. Apanhei uma confluência e ia a boiar por ali for
a aos 2000m. Entretanto tínhamos de mudar de rota e seguir a estrada em direcção Porto de Espada (mais ou menos) pois tudo à volta era desértico e voltamos a encontrar-nos mais à frente. Basicamente fizemos o voo ao contrário do voo tradicional de Porto da Espada! Nesta altura, já levávamos cerca de 2.30h de voo e tínhamos coberto poucos Kms, pois não havia vento em altitude, demorávamos muito a subir nas térmicas inconstantes, maradas e secas, céu azul sem núvem, era trabalhoso ir andando em frente e muitas vezes tínhamos de esperar um pelo outro com muita paciência (algo que não abunda muito aqui para os meus lados)! Só pensava que se tivéssemos a ajudinha de um ventito de cauda (bastava apenas 15kms) hora podíamos facilmente fazer muitos (muitos) mais kms!
Depois de Cacéres foi fixe! Senti-me uma ave de rapina a caçar térmicas e parecia que estava a viver um sonho acordado! Apanhava as térmicas e as águias vinham ao meu encontro em todas as térmicas que encontrava e eu dava-lhes ratada (estou a exagerar)! Ahahahah!!! Esta parte do voo passou muito rapidamente e após 3.30h achei que chegava e decidi aterrar, mas surpresa
das surpresa apanhámos uma termiconazonazinha com bué núcleos, poeira a subir, águias a dosi trapos com fios a subir.Finalmente conseguimos chegar ao tecto do dia pela primeira vez ao longo de todo o voo a cerca de 2700m. Separámo-nos um pouco de novo e fui feliz uma vez mais na linha que escolhi e vi o Eduardo a cair que nem uma pedra de novo. Com 4.00h de voo e aos 2.000m decidi que chegava e ia aterrar onde quer que o Eduardo aterrasse pois achei que ele estava demasiado baixo. Claro que andei uns kms em frente e depois regressei para tráspara aterrar pois ainda tinha muita altura! O Eduardo continuava a lutar e a subir e nesta altura passei ao lado dele a espiralar para baixo para aterrar na única povoação num raio de 20 kms. O Eduardo fez mais uma térmica e aterrou junto à estrada perto de Valença de Alcantara! O meu Compeo (para não fugir à regra)ficou todo marado e não tenho o Track Log para poder compartilhar convosco, mas o Eduardo Lagoa fez 96 Kms e eu devo ter feito 92! Foi um voo muito trabalhoso e de adaptação à Magic 4 que parece um camião a pilotar (tendência das novas asas alongadas actuais), mas voa muito!
O resto do pessoal também voou bem. O Lacerda e o Gonçalo Velez ficaram em Cáceres (entre 40
e 50kms???) o Super Driu deve ter feito 60 kms??? O António Aguiar andou a curtir aos 2700m bastante tempo e sacrificou-se a aterrar para fazer as recolhas ao "people".
Ainda jantámos todos na Tasca do "Xico José" em Porto da Espada e chegámos a Lisboa às 1.30h da manhã! Conseguimos a brilhante proeza de sermos parados por 3 brigadas de trânsito, apanhar duas multas, uma em Espanha por parar à beira da estrada e consultar o GPS nas recolhas e outra em Portugal por não parar num sinal de STOP em Castelo de Vide que estava escondido por uma árvore à meia-noite!
Aparte dos incidentes que fazem parte da aventura, foi um belo dia de voo para todos e os espanhóis foram muito porreiros e ainda ajudaram a coordenar as recolhas!


05.06.06

fotos: Andrés Sánchez

Mais fotos e classificações

terça-feira, maio 23, 2006

Liga Espanhola, Castejón de Sos, Mai 11-14

por Nuno Gomes

Como é do conhecimento geral, realizou-se entre 11 e 14 de Maio, uma prova do Circuito Nacional de Parapente de Espanha, em Castejon se Sos. Inesperadamente, deslocaram-se a esta prova 8 pilotos Portugueses, onde participaram no total 78 pilotos. O balanço foi positivo, pois para além do divertimento e da possibilidade de evolução, a prova acabo
u bons resultados dos Portugueses, ficando um deles (Cláudio Virgílio) em terceiro lugar da geral. Podem ver as classificações em
http://www.aerofly.es.

Informação Geral


Castejon de Sos é um pequeno "Pueblo" espanhol no coração dos Pirinéus. Uma vila simpática, com um povo relativamente acolhedor, que vive do turismo de Aventura com destaque para o Parapente. Para além do parapente é ainda possível voar de avião, o
u ultraleve, a partir do aeródromo local, fazer BTT, percursos pedestres, assim como outras actividades similares. Muito perto, em Sort, estão ainda disponíveis actividades em águas bravas, como Rafting, HidroSpeed, Canyoning, etc (espectacular).
A oferta hoteleira não é de muita qualidade, mas os preços nesta altura são acessíveis. Os Portugas ficaram todos nuns bungalows existentes no Parque de Campismo, com capacidade para 6 pessoas e pelos quais se paga 50 "erois" por
dia (não são
muito bons, mas também não são maus). Em termos de comida é possível comer relativamente bem á volta de 12 euros.

Coisas Boas


Costuma-se dizer q
ue, dando para voar, um parapentista está sempre bem. Mas neste evento posso dizer que se esteve muito bem. Para além de se voar nos 4 dias, apesar da chuva na manha do terceiro dia, houve vários factores que realmente contribuíram para a boa disposição dos Portugas.

- O ambiente entre os Portugas foi muito bom. Voamos juntos, divertimo-nos juntos, etc, e tudo correu pelo melhor.

- O lugar, como sítio de voo
é fantástico. Verdadeira alta montanha, com térmica qb, alguma porradinha a fazer lembrar a "mama", brisas, vales profundos a acabar em rios, vales mais largos com grandes campos relvados e tudo a funcionar como diz nos livros.

- O acolhimento dos pilotos Espanhóis foi fantástico. Bastante curiosos com a nossa presença, a maioria dos pilotos esforçou-se para qu
e nos sentíssemos em casa. De realçar a humildade de alguns
pilotos mais conhecidos como o Xevi Bonet, o Ramo
n Murrillas, Larry Pino, Guillermo Armas, só para referenciar alguns. Não foram poucas
as vezes que nos tentaram transmitir informação acerca das condições do local, as térmicas de serviço, os trajectos mais comuns, etc, isto apesar do ambiente competitivo que vivíamos. De facto os nossos "hermanos" apesar
de intrigados com o que nós andamos a fazer comportara
m-se acima das expectativas. Cá os esperamos para retribuir...

- O nível da prova foi muito elevado, com a quase totalidade dos bons pilot
os espanhóis presentes. Do ponto de vista formativo foi excelente com mangas rápidas, e muito técnicas. Qualquer decisão errada poderia por um piloto no chão.

Coisas Menos Boas

Como sempre, nem tudo foram rosas. Algumas coisas, essencialmente a nível organizativo não estiveram bem.


- Os horários raramente eram compridos.

- Os briefings eram só na descolagem, e sem aviso prévio. Aconteceu estarmos todos na conversa e de repente sermos os únicos na descolagem porque o briefieng tinha começado sem aviso notório. Depois, chegados ao briefing, descobrirmos que a janela de descolagem abria pas
sados 5 minutos e o Start passados 10 minutos (Estão a ver o stress...). Aliás, isto do stress esteve presente em todas as mangas, porque entre o briefing e abertura da janela não passavam mais do que 10 a 15 minutos. Resta a desculpa que houve sempre alguma pressão devido ás condições meteorológicas, nomeadamente pela possibilidade de ocorrência de desenvolvimentos.

- As recolhas funcionaram um pouco mal. Na última manga por exemplo, estivemos 2h30 á espera de ser recolhidos. Isto até que poderia ser desculpado, se não estivéssemos no golo.


- Para além das falhas nas recolhas, não houve tshirt, nem lanches, nem água e o jantar foi substituído por um beberete. Para quem n
ão sabe a inscrição nos 4 dias foi de 100 euros.

- Menos importante, e mais a ver com questões pessoais, também dispensava os "Ground Start" e as "pernas" contra o vento.

Relativamente á prova


Como podem verificar pelas classificações, realizaram-se 3 mangas (38, 50 e 62 km). Todas as mangas valeram mais de 900 pontos, o que demonstra a competitividade da prova. As mangas foram extremamente interessantes, com passagens fantásticas ao lado de paredes verticais com 600m e a 2600 m de altitude, ou sobre rios em vales 1000 m abaixo. Também foi possível voar com abutres e outros pássaros de grande porte e sempre acompanhado por muitos ouros pilotos.


1ª Manga -
Realizou-se na quinta-feira, após uma viagem de 12 horas e 3 ou 4 horas de sono. Para que nos mantivéssemos acordados, foi de longeo dia mais potente, com nuvens qb, e algumas a ameaçar transformarem-se
em
congestus. No fim do dia houve mesmo trovoada. O meu vário passou +8 maisdo que uma vez. Houve relatos de térmicas para além dos +10. Térmicas destas associadas a algum vento em altura, podem ser engraçadas. Foi defacto um bom teste á minha Tycoon (ticón para os espanhóis), que por vezesparecia mais um touro enraivecido. Foi necessário domar o bicho e manter o sangue frio. Esquecendo a parte menos boa, a manga
foi muito bonita. Tudo se decidiu antes do km 20 com a passagem do Torbon, um monte com mais de 2700m (é provável que o nome não esteja escrito correctamente). De facto a passagem foi feita por um planalto entre o Torbon e outro monte. Dada a potência do vale que se seguia, o ven
to ficava forte de frente. Era necessário passar muito alto junto á nuvem.
O Cláudio, o Cristiano, o David e eu, optámos juntamente com mais alguns espanhóis por passar junto ao monte Torbon. Essa veio a revelar-se uma boa opção. Os restantes Portugas e a maioria dos Espanhóis não conseguiram passar. Após a passagem do Torbon a coisa foi mais fácil, apenas com uma passagem bastante difícil, em que o pessoal após passar um grande vale, ficou baixo e teve de subir numa térmica muito forte e turbulenta agarrada a uma parede um pouco assustadora. A parte final foi muito rápida, a ser necessário carregar no pedal a sério p
ara não perder o grupo. O Cláudio carregou tanto que falhou o golo por centenas de metros. Eu e o Cris chegamos sãos e salvos.


2ª Manga -
Devido ao vento e probabilidade de trovoada foi marcada uma manga curta dentro do vale de Castejon. Após um Ground Start os Portugas conseguiram arrancar muito bem colocados. Infelizmente, após a primeira baliza, que ficava no vale, o vento ficava de frente eforte. As condições naquele momento também ficaram fracas e a grande maioria dos pilotos acabou por ficar por ali. O Cláudio, conseguiu chegar novamente á encosta, subir e iniciar a perseguição a um grupo que já setinha safado. Pelo que me foi dado a perceber a partir dai as condições melhoraram, e
apesar do vento, o pessoal conseguiu chegar ao golo. O David, que inicialmente se conseguiu aguentar também chegou ao golo (Parabéns). De referir, que entretanto os marrequeiros se reuniram numa boa esplanada a beber umas "canhas" e puderam assistir a uma cena fantástica, em primeira linha. Vinha o Ramon Murillas a chegar ao golo,tão descontraído que até tirou o acelerador. Entretanto o Bitoque Cláudio, que vinha logo atrás de "pata" a fundo, passa alguns metros acima do Ramon a todo o gás. Quando se apercebeu do vulto, o Ramon ainda meteuacelerador, mas foi tarde de mais. Escusado será dizer que foi o delírio da pequenada e razão para beber mais umas quantas canhas.

3ª Manga -
O céu estava completamente coberto por nuvens altas, não augurando nada de especial. Também estava previsto algum vento. Todos estávamos convencidos que a haver manga, seria uma marreca. Afinal foi precisamente o contrário. Marcou-se uma manga de 50 km a favor do vento. Após alguma dificuldade na primeira térmica o dia foi uma surpresa, apesar de se manterem as nuvens. Como dizia um espanhol "...isto funciona sempre...", e funcionou. O tecto estava baixo, com a base das nuvens abaixo dos picos mais altos. Mas subia-se por todo o lado, e se nos distraís
semos entravamos pelas nuvens dentro. Algumas nuvens estavam ameaçadoras. Eu nunca tinha andado tanto tempo de orelhas, mas era a única maneira de meter acelerador sem grande stress, e ao mesmo tempo evitar ser "sugado". O voo foi incrível, com quase todos os pilotos a avançarem em fila, passando monte, depois vale, depois monte, e assim sucessivamente até ao golo. Resultado, quase 30 pilotos no golo, dos quais 5 Portugas. Um
voo de gás á Tábua, com 50 km em menos de 1h30, poucas enroladelas, muito acelerador, e os primeiros 20 no golo a chegarem em 10 minutos. No meio ainda houve algumas aventuras, mas fica para contar no café....

Nuno Gomes

23-05-06

quarta-feira, maio 17, 2006

Recorde de Mondim, 90 km

Recorde de Mondim
Sra. da Graça – Alfandega da Fé: 90km.
06.05.06, descolagem: 14h, aterragem: cerca 18h.

por Helder Andrade

Olá amigos,

Nunca tive muito jeito para a escrita mas como este voo só foi possível devido a vários factores como por exemplo relatos de voos de outros pilotos com os quais se aprende muito, então também eu devo partilhar o meu voo, e os fóruns são claro um bom local para partilhar experiências.

Então é assim, eu e o Daniel de Coimbra no dia anterior combinamos tentar sair em distancia pois o dia parecia ser interessante para tal, o Daniel chegou a descolagem ao meio dia e enquanto comia alguma coisa foi observando as condições atmosféricas, pelas 13:00 saio do trabalho e no restaurante enquanto como uma sopa, uma salada de fruta e três copos de sumo de uva, na brincadeira convenci um amigo que ali jantava a ir recolher-me a Torre de Moncorvo terra onde ele nasceu embora esteja agora a viver em Mondim, bom Moncorvo porquê?, já algum tempo que estava na minha cabeça que com vento noroeste ia tentar Moncorvo com vento de oeste tentava Mirandela ou Bornes e Sul Chaves ou Montalegre.
Chego a descolagem e claro o Daniel já tinha uma boa ideia do que se estava a passar no local, bons ciclos térmicos alguns cúmulos mas só em cima da descolagem, para trás céu azul a indicar ainda fraca actividade térmica, mas com o vento a aumentar decidimos descolar e aguentar ali por cima, em poucos minutos estávamos no teto+ -1700m, o Daniel depois de ter entrado na nuvem saio com o noroeste e logo depois deixei de o ver, eu como a experiência é pouca tinha decidido que quando volta se a sair em distancia iria tentar explorar cada térmica ao máximo andar o mais colado possível as nuvens para poder realizar as transições com mais certeza (aprendi esta parte nos vídeos VENTUS parapente Team)e assim fiz até à parede de Macieira 10km, só que dali para a frente nada de cúmulos e estando eu na entrada do planalto apenas com cerca de 300m a cima deste e sabendo que tinha mais ou menos 12km até a próxima parede que até parecia-me montada uma estrada de nuvens dai para a frente penso para mim, não tenho sorte nenhuma e não tenho nenhuma hipótese de lá chegar mas para o chão não vou e andei ali a engatinhar durante 15minutos sempre debaixo da nuvem, entretanto começo a observar pequenas sombras pelo planalto adiante, claro eram cúmulos em formação, ora embora agora estando com cerca de 400m em cima do planalto com + -8km de comprimento, pensei é esta a oportunidade de tentar passar o planalto e chegar a próxima parede e assim fiz, com muita paciência e muito devagar lá fui atravessando embora consciente que qualquer térmica mal aproveitada e dado a altura que estava do solo , iria para o chão o que não era nada agradável pois tinha uma ou duas horas de mochila as costas até a próxima povoação, depois de passar o planalto com pouca altura foi como um prego, pensei novamente tanto esforço para nada mas lembrei me já vi "malta" que enquanto não tem os pé no chão não desiste, vou tentar fazer o mesmo, já com cerca de 100m do solo no meio do vale(Vila Real - V.Pouca) decidi apontar a um sitio que me pareceu poder ter térmica e bingo lá estava ela até andei ao para trás, enrolei e pouco depois estava encima da serra da Falperra, aguentei ali em termodinâmico por vezes quase parado até parecia uma águia a observar a presa, a térmica lá acabou por se soltar e a partir dali sempre a aproveitar a térmica ao máximo e seguir os cúmulos que iam rebentando a minha frente, que por vezes demoravam a aparecer e como não queria arriscar nenhuma transição pois até perto de Vila Flor o teto andava pelos2000m de altitude tive que permanecer por varias vezes no mesmo sitio e por vezes recuar mas tentando estar sempre o mais perto da base da nuvem para manter sempre uma boa altitude, entretanto chego a Vila Flor onde avistei vários pilotos a voar perto da Serra de Bornes, e pela minha frente tinha agora duas estradas de nuvens, uma em direcção aos pilotos que avistava e outra parecia-me em direcção a Moncorvo mais propriamente Carvissais, bem decidi me continuar em direcção ao objectivo que embora um pouco na brincadeira me tinha proposto, que era a terra do meu amigo Tomé(Torre de Moncorvo),mas quando comesse a atravessar o Vale da Vilarissa começo a notar o vento mais forte e observo uma estrada de nuvens com direcção Moncorvo Freixo, e estas com algum desenvolvimento e a indicar vento com alguma intensidade, bom vou deixar Moncorvo para outra oportunidade, e comecei a rumar novamente na direcção que trazia antes, passo ao lado esquerdo de Alfândega da Fé e vou até cima do rio sabor mas com o vento a aumentar e a começar a estragar tudo pensei, para mim são mais alguns km mas para a recolha podem ser mais uns 30 ou 40, optei então por ficar do lado de cá do rio onde acabei por aterrar na aldeia de Vilar Chão.

Já me disseram " agora ficaste com estatuto...agora só vais voar quando der distancia ", claro que é a brincar mas vou dizer aqui o mesmo que respondi a essas pessoas minhas amigas, em primeiro não é nada que qualquer piloto com alguma experiência, se tentar não possa conseguir (o Paulo Belo de Vila Pouca já o fez por varias vezes e distancias maiores),e se pensarmos nos 380 do Diogo!!, segundo, hoje fiz 90km amanhã posso nem conseguir fazer 9km, terceiro, marrecas ? Isso já não é para mim!, quem pensar assim não vai longe porque em minha opinião para se voar melhor e realizar bons voos é preciso treinar muito, fazer muitas marrecas falhar muitas térmicas etc. etc.

Aqui fica o meu voo, para mim muito lindo claro, que embora a fazer distancia g
ozei muito a paisagem e o passeio.

Bons voos,
Hélder Andrade

sábado, dezembro 31, 2005

Para Onde Foram Todos?!



por Álvaro Segadães


Corria o ano de 2006

As memórias de um verão quente e de ventos fracos, preenchiam a alma, tranquilizavam o espírito. Como se tivesse sido ontem... os grandes voos, a térmica potente e suave. O Agosto ia longe, mas as memórias continuavam frescas, quase palpáveis.

O som intermitente do vário, permanecia nos ouvidos e acompanhava o nosso próprio respirar soando nítidamente a cada inspiração, e calando-se quando, de um sopro só, expelíamos o ar dos pulmões.

Aquele som omnipresente que nos acompanhava até durante o sono, e que nos proporcionava manhãs descansadas e sorridentes.


Como tinha sido bom ouvir o vário acompanhar as espirais ascendentes da nossa nova companheira, trepadora de térmicas. Nunca se tinham visto tantas asas novas, como neste verão de 2006.

Parecia que, de repente, toda a gente tinha decidido ter chegado a altura de dar um passo m
ais e passar ao modelo seguinte, mais avançado, mais exigente também. Alguns trocaram de marca, outros apenas de modelo.

As performances das novas asas permitiram-lhes, em qualquer dos casos, bater marcas pessoais, de altitude, de permanência e de distância. Os cursos nível IV de Março e Junho, trouxeram sangue novo às serras e garantiram uma temporada sem acidentes.

Pilotos e instrutores eram unânimes na sua apreciação: 2006 foi, até agora, o melhor ano para o Parapente Português!

Que saudades, do verão passado...


Outubro passou, também. Este início de Novembro trouxe-nos, felizmente, sol e vento fraco. Quente, para a época. Condições para recordar, voando bem. Nada como o verão mas, ainda assim, excelentes condições de voo: tecto alto, cúmulos dispersos... a merecer sacrificar uma semanita de férias.

Domingo, manhã cedo, descolagem sul, no Larouco. Vento NW-3 Km/h.
Esperar que aqueça e que apareça mais gente, com um dia destes...
11 horas, vento SSE-8 Km/h, formam-se os primeiros cúmulos, discretos.
11h45, os ciclos são agora regulares. Ao alcance da visão, 3 cloud-streets, bem alinhadas, paralelas, a perder de vista... Mas, porque raio é que não aparece ningu
ém?





















Que é que estes gajos daqui, sabem, que eu não sei? Onde é que se meteram todos? Porque é que não vêm voar? Afinal, é domingo! Um dia destes...


Não descolo. Vou à descolagem Norte, com o carro a bater em tudo que é pedra, furioso. Ninguém. Só as mangas, tristes, caídas... Que se passa?

Chamo por rádio... silêncio. Nada. Resposta, nem em Português, nem em Galego...

Arranco para Moncorvo... ninguém. Nem uma asa no ar, em todo o caminho. Corri todas as frequências de rádio que conhecia e, nada. Bornes, Macedo, Mirandela... igual. A esta hora, não admira, quem quer que tivesse descolado, fê-lo mais cedo. Como é que fui perder o telemóvel, logo numa altura destas...

Estarão todos fartos de voar? Fartaram-se no verão?


Durmo, em Mirandela. Melhor, alugo um quarto em Mirandela. Como agora cada um tem o seu fórum, passo a noite a percorrê-los à procura de alguma notícia, algum encontro de que eu não soubesse? Nada, não havia mensagens recentes em nenhum deles. Vá lá, que as previsões continuam excelentes, para os dias seguintes.

Segunda-feira. Parto cedo, para o Sameiro.
A placa à entrada do Parque quase me põe a chorar:
“ Escola de Parapente – Reabre em Dezembro “

Em Dezembro? Estamos no início de Novembro, uns dias assim...
Subo à Azinha. Nem os vigias lá estão.

Quatro mangas a rirem-se de mim, bem alinhadas, todas! Estas p... que teimam em estar, quase sempre, uma para cada lado. O vale limpo, vê-
se nítidamente a Torre, a Gardunha, os cúmulos altos, por todo o lado, como que a decorar a paisagem para o Natal que se aproxima...

Mas onde é que se meteram aqueles car... todos? Descolo?
Estou sózinho, sinto-me sózinho. Já cravei o Bruno, uma vez, para vir cá acima comigo buscar o carro... não vou pedir-lhe outra vez.

Linhares, dou um salto a Linhares e voo lá.
Placa, na porta da Escola: “Férias”


Férias? Está toda a gente de férias? Será que a gripe das aves também ataca parapentistas? É uma epidemia? Estou furioso, será um sintoma da gripe? Fui apanhado?

Dia seguinte: Porto da Espada. Ninguém.

Montejunto, Arruda, Arrábida, Loulé... percorri o País todo numa semana, sem voar! O País todo! Sem voar! Nem nas praias, o vento aí era fraco para o dinâmico, mas no interior as condições eram óptimas! Ninguém, não encontrei ninguém!

Sexta-feira, um farrapo, volto a Lisboa feito um trapo.

A FPVL! Lá devem saber o que se passa! Nem telefono, vou direitinho aos Olivais.
Boa, a Secretária está lá.
Nem me deixou abrir a boca:

- Quer informações sobre escolas de Voo Livre?
- Escolas? Não, eu sou piloto, só queria saber...
- Piloto? E está aqui?
- Não devia estar? – pergunto, já com a certeza de que estava a dar barraca.
- Não... bem, pode estar mas...
- Onde é que está toda a gente? Por favor, diga-me: Onde é que está toda a gente? Percorri o...

Olhou-me, bem nos olhos, como se estivesse a falar com um marciano, ou a ensinar a tabuada a um peixe:

- No Ceará, homem! É Novembro! Estão todos no XCeará!

Feliz 2007!

Álvaro Segadães

quinta-feira, dezembro 08, 2005

Quem quer voar uma asa de competição?

Na revista Cross Country de Nov-Dez 2005 o Bruce Goldsmith apresenta reflexões sobre quem estará apto a voar asas de competição.
Refere que o aspecto crítico na pilotagem destas asas é ter-se a intuição de controlar o ângulo de ataque da asa num intervalo de O a 15º: se o ângulo de ataque ultrapassar os 15º negativo há o risco de sofrer-se um fecho frontal, se o ângulo ultrapassar os 15º positivo o risco é o de a asa entrar em perda.
Assim, adianta os seguintes critérios como condição para um piloto se iniciar numa asa de competição:
a) Ter um mínimo acumulado de 500h de voo nas mais variadas condições,
b) A sua asa anterior ser dhv 2-3, ou no mínimo dhv 2,
c) Realizar regularmente voos de distância de 50 km no mínimo,
d) Voar pelo menos 100h por ano.
Se o piloto não cumprir todos os critérios enunciados não deverá considerar voar uma asa de competição.
Acrescenta que idealmente o piloto deverá voar 200-300h por ano.
Refere também que a prática recente é muito relevante: se o piloto não tiver voado em condições térmicas nas últimas 2-3 semanas deverá fazê-lo com cautela pois estará algo destreinado. O facto de já ter voado intensivamente no passado mas não o ter feito no último ano, recomenda que recomece com uma asa dhv 2-3 ou dhv 2 para se recuperarem os reflexos e a experiência de voo.

sexta-feira, novembro 25, 2005

O XCeará 2005

por Miguel Costa

Olá a todos.
Finalmente tenho algum tempo para dizer algo sobre o XCeará, embora o Gonçalo e o Diogo já vos tenham dado um pouco do perfume...
Queria também antes de mais agradecer a todos pelo apoio e mensagens de felicitações que nos enviaram.
Em relação a esta bela semana que já passou, é de salientar o bom ambiente vivido entre nós, e com todos os elementos, quer da organização, quer entre os pilotos.
Daquilo que já foi dito, alguns dados a reter são:

O vento impressionante, as descolagens hardcore (que se fosse assim cá, duvido que alguém descolasse), a grande possibilidade de se marrecar na 1ª parte do vôo, o sofrimento físico e psicológico de vôos muito longos, o acordar cedo, e pior- deitar cedo, a organização bem preparada, as recolhas a funcionarem com tantos pilotos espalhados por centenas de kms.
É bom recordar o descolar ás 9.15 e apanhar +10 (a térmica mais forte do dia), entubar a 1.300 metros (tecto inicial) e depois sofrer para não ir para o chão durante os primeiros 70 km, fazer muitos kms de nuvem em nuvem, mas tambem muitos no azul dependendo dos dias, passar por vários tipos de relevo e vegetação, e deserto...ah,ah,ah...impressionante a cordilheira que se vê no km 200, onde se vê uma parede até se perder de vista para norte, e para sul, onde se passa para um planalto, e o fim do dia a voar quando se pensa que já não dá mais e fazemos mais 70, 80 kms... e o aterrar , onde não se pensa que existe alguém, e aparecem 200 mininos...
Qua
ndo é a próxima ????


Miguel Costa

quinta-feira, novembro 24, 2005

O VOO do XCeará 2005

por Diogo Pires
Começo por agradecer publicamente a todos os que, das mais variadas formas, me felicitaram quer pelo resultado geral quer pelo voo em si.
Feitas as contas foram 810km voados em apenas quatro voos, o que dá muito para contar.
Calculo que muitos estejam ansiosos por saber pormenores, por isso partilho com vocês um texto que relata o maior voo que já fiz, para mais tarde recordar.
Estou à disposição de todos, para esclarecer alguma dúvida, ou satisfazer alguma curiosidade através do e-mail jdiogoppires@mail.pt .
Tenho também perto de 200 fotos que mais tarde posso por on-line.

Obrigado a todos, e cá vai:
Dia 18 de Novembro de 2005
O dia começou cedo na pousada "Pedra dos Ventos", local fantástico onde ficamos hospedados durante toda a semana, e onde era também o centro de todas as operações.
Ás 6.30h foi a hora da alvorada, o Gonçalo foi o primeiro, a seguir eu, e o Miguel como de costume a aproveitar todos os minutos, levantou-se ás 6.45h.
Descemos para o pequeno-almoço (sempre muito completo, nunca sabíamos quando íamos comer outra vez), a azáfama já era grande, pois era o último dia de competição, e ainda estava tudo em aberto em termos de resultado final, já tínhamos dois voos descartados e este dia ia ser decisivo.
A pressão era grande, uma vez que eu já tinha estado em primeiro e estava agora em terceiro, com dois grandes pilotos à minha frente, o Bret dos Estados Unidos e Tomas da Macpara, embora a diferença fosse pequena eu estava em desvantagem, por isso tive de ter muito cuidado nas decisões.
O primeiro carro subiu ainda não eram 7.15h, e o meu saiu pouco depois das 7.30h.
A meio caminho da descolagem vejo já um piloto no ar, eram 7.45h, não era o Ceará como de costume, mas também não cheguei a saber quem era, estava c
oncentrado no Bret e no Tomas.
Eram agora 9.00h já tínhamos tudo pronto para descolar, e foi o que fez o Tomas, já estavam a voar uns cinco pilotos. Analisei os ciclos, e tinha boas janelas para descolar, 20 a 30 km/h durante menos de um minuto, depois subia rapidamente para os 50 km/h.
Com a indispensável ajuda dos meninos da "Juatama" (aldeia em frente a descolagem), descolei ás 9.12h, logo a seguir á Petra e ao Gilmar, estava já o Tomas a partir alto, e o Bret ainda a preparar. Resolvi descolar no meio dos dois, assim achei que seria mais fácil controlá-los.
O ciclo foi bom para descolar mas mau para subir, tive de esperar em frente á rampa, e lá veio uma térmica muito derivada que já não me deixou regressar. Contra-derivei para norte, por cima da lagoa de Quixádá, o que não é muito habitual, mas todos os pilotos que vi na rota estavam baixos.
Logo de seguida era eu quem estava em apuros, o tecto ainda era baixo (1300m), as habituais nuvens eram escassas, e o vento partia as primeiras térmicas do dia.
Embora baixo, o voo começou mais ou menos rápido, tinha que enrolar zeros, cair numa descendente era a morte do artista, não dava para procurar núcleos.

Acontece então um problema grave, fiquei sem bateria no rádio (tinha uma de reserva, mas não podia trocar), agora já não conseguia controlar quem queria, e pior, não ia poder transmitir a minha posição (nesta prova por questões de segurança e logística, os pilotos vão
informando os quilómetros percorridos).
Logo desde o princípio do voo tive de me preocupar só comigo e deixar os outros dois, embora tivesse noção que não estaríamos longe uns dos outros.
Só no quilómetro 50 é que consegui finalmente chegar à base (1800m), então foi "via verde" até aos 100 uma estrada de cúmulos fantástica, com boas formações e térmica forte, o dia parecia estar a melhorar.
Mas não, rapidamente estou de novo baixo e numa zona bastante complicada de passar, do quilometro 100 ao
150 existe uma cordilheira que começa com morros pequenos que vão crescendo até uma serra que normalmente é contornada pelo lado norte, só que "nuvens de grilo", as condições tinham piorado, o ar era seco e as térmicas saiam aos remoinhos.
Estávamos 3 pilotos em apuros, 2 parapentes e uma delta. Procurei o venturi de um desses morros e lá fui, a derivar muito e a subir pouco em direcção ao centro da serra onde uns pequenos cúmulos davam a indicação de o tecto ser um bocado mais alto do que até aí.. O outro parapente aterrou e a delta continuou até à serra onde acabou por se acidentar, fez um "tumbling" e o piloto caiu em cima da asa, aterrou com o reserva e teve algumas lesões não muito graves.
É durante esta deriva que me apercebo que o Bret andava muito baixo, mais ou menos na minha posição, e pareceu-me que ia ficar por ali, só me faltava o Tomas.
Continuei:

Já no centro da serra, e alto, vejo uma asa a tentar subir numa ligeira crista no sotavento da serra – era ele!
Sem ter 100% de certeza de ser o Tomas, saí da rota 45º para sul onde supostamente se formaria uma confluência com a junção do vento que se dividia para contornar a serra e se volta a juntar no sotavento
formando assim uma linha de ascendência de vários quilómetros. Quanto mais forte é o vento no solo, mais longa é essa linha.
Dito e feito! Fico baixo, vejo o Miguel bastante alto, mas rapidamente subo dos 780m aos 2820m e distancio-me tanto do Tomas como do Miguel, seguindo agora a tal confluência fora da rota, e a partir daqui nunca mais vi ninguém.
Eram 13.20h, hora de almoço, estava no quilómetro 180, e contra o meu costume lá fui comendo umas barritas de cereais, e o isostar, indispensável para combater a desidratação.
A planície era longa até ao quilómetro 210, mas com uma sequência de ciclos bem encadeados foi fácil.
Chega então a famosa serra da Ibiatapa, cordilheira que se estende por 150km perpendicular á rota, e na qual existiam vários incêndios.
Se por um lado o tecto sobe em cima da serra, por outro o fumo dos incêndios estava a complicar a vida, pois não havia qualquer nuvem no planalto que se segue á serra.
Decidi não corrigir a rota, e continuei desviado para sul, a tentar seguir o percurso do voo do primeiro dia, que também me levou longe (279km).

E funcionou, ciclo atrás de ciclo, a minha preocupação era agora manter-me a voar fosse em que direcção fosse, pois sabia que ia ser ao longo daquele planalto com 30km, que muitos pilotos iriam aterrar.

É nesta fase do voo que tive de aplicar a regra numero "um" para quem faz voos de cross, que é manter-me a voar, fosse para onde fosse. Querer ser rápido nesta altura, ou condicionar o meu voo há rota estabelecida, ia por em risco o trabalho feito até aqui.
É uma área complicada, sem viva alma, é chamada área em litígio, pois nem o estado do Ceará nem o do Piauí a querem devido a não ter mesmo nada.
São 15.20h e estou no quilómetro 280, mesmo por cima do local onde aterrei no primeiro dia (estava a seguir a mesma rota) tenho uma hora de adianto em relação a esse voo e ainda me restam duas horas para voar.
É aqui que começo a acreditar que tudo pode acontecer.
Sem hesitar continuei para uma travessia de 40km, onde a vegetação continua densa, mas agora mais verde. (Esta vegetação chama-se Jurema e é na opinião de muitos pilotos uma enorme fonte de calor, pois é composta quase e só de paus secos que não projectam sombra no chão, mas que por sua vez impedem o vento de varrer todo o calor acumulado.)
Só que agora mais verde já funciona ao contrário, e tenho é que procurar zonas peladas, o que se torna numa tarefa difícil pois o aspecto da vegetação parece uniforme.
A partir daqui a companhia dos Urubus foi preciosa, pois com o sol de frente é difícil avaliar o terreno, e como as nuvens eram poucas e muito pequenas eles eram fundamentais para me manter em voo.
Era hora do lanche, apesar de não me apetecer, tinha consciência que para manter o nível de concentração tinha que me alimentar, e foi o que fiz, já estava a voar há quase sete horas.

Sem povoações, sabia que aterrar nesta altura estaria a várias horas de caminho de qualquer aldeia e que de certeza teria de passar a noite no mato.
Apanho uma térmica que provavelmente seria a última, com muita paciência e sem ansiedade chego pela primeira vez aos 3000m.
Eram 16.55h e estava com 340km.
Inicio o ultimo planeio com vento totalmente pelas costas, com uma finesse média de 15, e cruzo a principal
estrada do estado, quando me apercebo que já alguns carros trazem as luzes ligadas, estava a anoitecer (a 3000m temos mais luz do que á superfície).
Chego à povoação de "Cabeceira" (vem no mapa do garmin 76S), quilometro 370, mas ainda tenho mais ou menos 800m para o chão.
Foi aqui a decisão difícil, tinha duas opções, ou aterrar ali ou entrar numa mata de palmeiras e outras arvores altas.
Sabia que recorde Sul Americano era 377km, e sem pensar na hipótese de aterrar ali naquela aldeia, continuei… Agora sim, com mais ansiedade quase não tirava os olhos do GPS a contar cada 100m que andava.
Já estava para tudo, alguma daquelas palmeiras me ia parar se não batesse o recorde.
É então com 381km que encaro o vento e ponho os pés no chão num cruzamento de cami
nhos no meio do nada.
Sem saber bem o que fazer, reparo que está mesmo a ficar escuro. Desequipo-me a correr, começo a dobrar a asa e acabo já com a lanterna na mão.
Aparecem então uns miúdos e graúdos que me seguiram desde a aldeia, confesso que tive medo, pois não sabia como iriam reagir. Disse que estava perdido e precisava de ajuda para sair dali. Depressa mostraram vontade em ajudar-me e foram chamar um senhor que se prontificou a levar-me à aldeia. Era uma carrinha Opel muito velha, 1970 talvez.
Cheguei à aldeia e liguei de imediato ao Chico, não sabia de mim desde de manhã, já estava preocupado, mas cheio de alegria, logo confirmou que o voo que eu
acabara de fazer era recorde.
Também me informou que o carro de recolha já não me ia buscar naquele dia, e que eu ia ter de dormir por lá. Então procurei estadia no único local possível "Dormitório Brisa do Lago". Era um pátio com camas de rede de baloiço e dois quartos muito manhosos nas traseiras, por acaso um estava livre e foi ali que fiquei.
Era gente muito simples, simpática e acolhedora. Queriam saber de tudo e depois de uma longa conversa, ate me consideraram mais sábio que o Papá.
Ás 10.00h da manhã do dia seguinte chega a minha recolha, mal sabia eu o que me esperava. Depois de quatro horas de caminho fomos infor
mados, que 26 pilotos tinham descolado, num dia que aparentemente era melhor do que o anterior, mas que já não contava para a prova.
Pensei logo que embora o golo fosse em "Poranga", 215km, ia haver gente a continuar, e confirmou-se.
Cheguei a Quixádá ás 11.00h da noite (trinta horas e meia depois de aterrar), e fui informado que o Tomas tinha descolado neste dia e fez a ultima comunicação ás 16.45h no quilómetro 340km a 3000m de altura.
Pensei logo que o meu recorde tinha durado apenas 24h. Foi uma noite de agonia.
Só no dia seguinte é que o Chico teve comunicação com o Tomas, e soube onde ele tinha aterrado.
Ligou-me de imediato e disse: "O recorde ainda é teu, o Tomas SÒ fez 365km"
E assim termino o relato desta incrível experiência.
Não consigo ficar indiferente a esta aventura, por isso a passei a papel e à qual dou o nome de "O VOO".


Diogo Pires


PS: Os resultados do XCeará 2005.