quinta-feira, janeiro 10, 2008
segunda-feira, dezembro 03, 2007
O meu Voo de 300 km no XCeará 2007
por Gonçalo VelezAdoro participar no XCeará e espero conseguir ser um reincidente em cada ano!Nesta prova voa-se em liberdade, o quanto se quer e para onde se quer, sem regras, sem limitações. Deve-se respeitar um eixo e voar-se em distância o mais longe que consigamos. Esse eixo deve ser preferencialmente a rota do vento que nos impele à sua velocidade.
Este ano os horários de descolagem adiantaram. Tem-se vindo a descobrir que é possível descolar tão cedo quanto as 7h e encontrar ascendente térmica!
Por isso, o pequeno almoço passou para as 6h30 e o primeiro transporte para a descolagem às 7h!
Quase todos os pilotos partiam muito cedo para a descolagem. Procurei isolar-me dessa ânsia pois o que procurava era realizar um bom voo e não julgar que podia estabelecer algum recorde!
Descolar às 8h ou mesmo às 8h30 significava encontrar condições muito fracas, um tecto baixo e enfrentar um risco grande de não se ultrapassarem 20 km.
Subir à rampa demasiado cedo, para descolar horas depois implicava um desgaste muito grande pois a espera ao vento é enervante. Assim, subia cerca das 7h30-8h pois não fazia tenção de descolar antes das 9h.
Não sei por quê, achei as descolagens este ano mais fáceis. Talvez por ter levado uma asa mais rápida (Tycoon, dhv 2-3) do que a que usei nos anos anteriores em Quixadá (Tattoo, dhv 2). Além da maior velocidade em voo, esta asa infla e sobe com maior rapidez.
Carrego-a com 2 kg acima do limite superior.
São vários factores que melhoram a segurança nestas condições agressivas de Quixadá.
Quixadá, 15.11.07
Descolei às 9h10; a rampa está a 487m de altitude. A essa hora o tecto ainda era baixo, 1200m, e a minha intenção era seguir uma táctica de prudência: enrolar toda a ascendente que encontrasse.Nestes ventos de 30-40 kmh de média, viajamos na deriva das térmicas que também se deslocam perto dessa velocidade.
Pouco depois de descolar fiquei baixo, km 15, e tive o sentimento de angústia do costume, de me sentir impotente para inverter um destino terrível, mas não desisti, claro. Esta era a zona da "marreca" geral.
Como já estava com algum treino naquelas condições, era o meu 6º voo em Quixadá este ano, fiz uma deriva na diagonal meio a contravento e, por sorte, entre dois montes pequenos que, provavelmente faziam acelerar o ar, soltou-se a térmica!
Consegui subir aos 1500m percorrendo vários quilómetros que me levaram para a planície de Madalena, deixando para trás os montes que envolvem Quixadá.
São os primeiros 60 km os mais críticos. A maioria dos pilotos aterra antes de Madalena por que o tecto ainda é baixo, as térmicas não são muito fortes e o relevo é um pouco incompreensível. No plano a oeste de Quixadá, voa-se frequentemente no “azul”.
No entanto, neste dia o céu estava bem populado de cúmulos.Depois desta térmica fiz uma boa transição mas os cúmulos que tinha visado tinham esgotado a energia. Naquela zona há vários lagos e lembrei-me de o Diogo dizer que os lagos libertam sempre térmica.
Sobrevoei um lago pequeno onde tinha aterrado há dias, pensando que seria muito azar voltar a aterrar ali.
Dirigi-me para sotavento do maior lago, onde já tinha subido noutras ocasiões, e sondei o espaço, nada. Estranho.
Vou perdendo altitude e desaperto a abertura da selette pois quero estar mais concentrado no voo. Deixo-me ir para sotavento sentindo ansiedade mas acreditando que não ficaria naquele local.
Uff que alívio!
Os momentos mais memoráveis do voo de distância são estas recuperações inesperadas, sobretudo quando já se olha em redor para ver quais são as possibilidades de aterragem!
Este ano voei mais contido e mais ponderado, e apliquei pela primeira vez com sucesso a técnica de sondar o espaço.
Em voos anteriores o meu hábito quando perdia a térmica, era virar costas ao vento e “deixar-me ir que algo haveria de aparecer”.
Errado. É preferível redescobrir algo que existe (ou já existiu) do que partir para a incerteza. Neste caso, socorria-me dos instrumentos e do “esperto na cabeça” para tentar perceber que podia já estar a voar a sotavento da térmica, ou ao lado.
As térmicas sofriam muito com a deriva do vento e desenvolviam-se muito “deitadas”. Senti que dominava melhor os nervos, que estava um piloto mais maduro, e senti que sofria muito menos com aquela impaciência de “voar sem ver” e o stress que isso provoca.
Voamos num meio transparente, que dá alguns indícios para quem os consiga detectar, mas se estivermos numa fase da nossa progressão em que não sabemos o que fazer, isso é muito enervante! Vamos para o chão sem sabermos porquê, nem o que poderíamos ter feito para o evitar.
Esta térmica levou-me até Madalena, km 60, numa rota a sul por onde nunca tinha passado. Aqui havia uma extensão muito grande de jurema, o mato com espinhos, que me deixou preocupado.
Nesta fase perdi muita altitude pois não conseguia urinar através da minha algália. Já há algum tempo que me esforçava, mas sem resultado. A minha preocupação era: ou mijava ou aterrava, pois o meu limite são as 3h-3h30 de voo.
Decidi que tinha de voar! Tirei a luva, abri a selette, depois as calças, arranquei o tubo, esforcei-me e… “aqui vai disto, ó Evaristo!”
Nem vi o que aconteceu por causa do cockpit à frente, mas penso que mais de metade da urina me molhou as calças e o interior da selette.
Não fez mal, ganhara outro ânimo para voar!
Depois consegui outra térmica que me fez sobrevoar toda a serra de Monsenhor Tabosa e passar à vista dos locais onde já tinha aterrado duas vezes, uma delas dois dias antes. Só que desta vez passava alto e cedo, 15h.
Partilhei esta térmica com um urubu e girávamos observando-nos mutuamente, ambos com o pescoço dobrado para o lado. Respeitámo-nos sempre até ao instante em que decidi dar uma volta no sentido contrário e estraguei a nossa “relação”, levando-o a abandonar a térmica.
Em Tabosa, km 120, subi numa ascendente gerada por uma queimada e a térmica era suave, pouco rentável, mas segura.
Passei a serra de Tabosa pelo norte, por cima da estrada, e consegui nova térmica resultante doutra queimada que me levou aos 2800m.
A estrada no chão era uma longa recta para Nova Russas, e por cima tinha uma bela estrada de cúmulos.
Não sei porquê, este ano evitei entrar na nuvem… Voei bastante de acelerador sob as nuvens pois sugavam bastante, e também por ver ao longe o que pareciam congestus!
Passei o km 127 a pensar que tinha ultrapassado a minha melhor marca realizada este ano a partir de Castelo de Vide.
Foi neste troço, km 140, que sofri dois potentes frontais que me deixaram muito desconfortável, sobretudo por terem sido quase consecutivos. Estava na base do cúmulo e sentia-se uma turbulência muito agressiva e uma ascendente tipo sugadouro, algo preocupante.
Cometi o erro de abandonar a térmica para sotavento e de entrar em fortes descendentes.A seguir a Nova Russas, km 160, tornei a ver-me a 300m do chão e a avaliar terrenos de aterragens. Mas nova térmica me salvou e levou-me para 2600m.
Adiante acontece algo de curioso: o chão sobe, dando origem a um planalto, e ficamos com um tecto mais estreito! Essa é a impressão que dá, mas o tecto também vai subindo.
Olho em redor e dou-me conta de que não vi uma única asa durante todo o voo! Que se passa? Que é feito “deles”? Como se fala sempre demasiado no rádio, voo com ele desligado por isso não tinha qualquer noção sobre quem poderia estar a voar perto aquela hora.
A organização pedia que informássemos a nossa posição sempre que aproximávamos uma baliza: número de piloto, altitude e distância da baliza. Enviava essa informação e desligava o rádio.
Esta informação é importante por razões de segurança óbvias, mas também para permitir à organização posicionar veículos de transporte.
Passo Poranga, km 215, bastante alto, consigo atingir 2900m e percorro 26 km em planeio a direito. Em baixo a estrada é uma longa recta de terra com mato para cada lado. Uma zona muito preocupante se tivesse que aterrar, embora a estrada fosse sempre a salvação.
Às 16h30, km 255, consigo subir no que julguei ser a última térmica, que me levou aos 2900m outra vez.
Faço um planeio de uns 20 km numa restituição deliciosa em que a taxa de queda é muito reduzida, e as cores do final de tarde são soberbas.
Concentrei-me a aproveitar ao máximo as modestas linhas de ascendente que fui sentindo. Às vezes desconcentrava-me a apreciar a paisagem e auto-criticava-me!
Cheguei a Pedro II eram 17h e reparo que estou no km 283.
Pergunto-me: e por que não os 300 km, hein?!

Passo a sul da cidade sobre uma colina e vejo adiante um urubu que enrolava térmica. Nem queria acreditar que ainda podia haver uma ascendente aquela hora!
Era fraca mas fez-me subir 700m. O urubu e eu girávamos sincronizados, eu desconfiado, tentava olhar para trás das costas para ver se ele não me traía. Depois subi mais do que ele e desistiu, foi procurar outra companhia.
Sabia que estava próximo o momento de aterrar e fazia contas ao terreno, e sobretudo tentava adivinhar qual era a estrada principal, ou seja, o eixo lógico dos transportes de recolha para não ficar muito distante de um local conveniente.
Do ar tudo parece perto e fácil, mas quando estamos aterrados arrependemo-nos de algumas opções de aterragem que fizemos, sobretudo quando o rádio não alcança alguém!
Contudo, neste momento só olhava para o conta quilómetros: queria passar os 300 km!
Voei por cima de uma estrada e esperei, tentando sempre sentir as melhores linhas de planeio.
Aproximava uma aldeia e vi 288 km.Lá em baixo jogavam futebol num campo grande. Em redor o terreno era coberto de arvoredo e raras clareiras.
Detectei um campo largo, bom para aterrar, e outro campo mais longe, menos bom, estreito e ladeado de árvores.
Vi 299 km e deixei-me ir… esperei.
Mal vi os 300 km dei meia volta e dirigi-me para esse campo largo.Uff, consegui.
Eram 17h30. Não tinha comido todo o dia e antes de dobrar a asa comi duas deliciosas maçãs e três mini-bananas que transportava comigo.O rádio não tinha alcance e o meu telefone não tinha rede! Pedi a um dos nativos para enviar um sms ao Chico com as minhas coordenadas.
Fez-se escuro rapidamente e saí do campo na companhia de aldeãos com uma lanterna acesa na testa.
Deram-me boleia de moto até uma mercearia no centro da aldeia onde comprei cerveja, pão e uma lata de sardinhas, pouco mais havia para comer.
Soube que estava em Mororó, município de Lagoa de São Francisco, estado do Piauí.Fecharam a mercearia às 20h e deitei-me a dormir no chão com uma bota a servir-me de almofada, o rádio ligado à cabeceira.
O carro da recolha apanhou-me eram 1h30 e cheguei ao hotel em Quixadá às 9h, atrasado para o pequeno almoço e para outro dia de voo!
Aqui está o track do voo que descrevo acima.Conclusão
Este XCeará resultou numa enorme surpresa para mim pois acabei por voar o triplo do que voei em 2006!
Em 8 dias disponíveis, voei 7, num total de 18.9h.Excluíndo o voo local de treino no primeiro sábado, voei 17.8h e 587 km de distância.
Isto equivale às médias por voo de 2h58 e de 98 km de distância.
Foi uma excelente semana!
Obrigado aos meus companheiros de viagem e de voo, Paulo Reis, Carlos Brasuka, Gil Navalho e João Brito pela amizade, e aos demais participantes, motoristas das recolhas, meninos de Juatama (os ajudas na descolagem) e pessoal da organização por participarem e organizarem esta prova tão especial.
O meu companheiro Paulo Reis fotografou e filmou:
Slideshow
Filmes:
Viagem para Quixadá e Voozinho
Briefing e Manga de Teste
Dias 1, 2 e 3
Dias 4 e 5
Dia 6 e Entrega de Prémios
Parabéns aos recordistas do Mundo, Marcelo Prieto “Cecéu”, Rafael Saladini “Sardinha” e Frank Brown pelos 461.8 km voados em 14.11.07, a véspera do dia do voo que relato acima.
quinta-feira, novembro 15, 2007
336 km no XCeará 2007

por Gil Navalho
Viva
O Ceará continua a bombar e os voos terminam por sair!
Impressionante, voa-se todos os dias sem excepção.
É claro que o momento da descolagem é sempre emocionante e é preciso acreditar piamente na ordem para descolar dada pelo Expert local.
O Team Outsider ontem revelou a sua arma mais letal: Gonçalo Velez, conhecido nalguns locais por Gonçalo "Trepa-Tudo"!
O nosso artilheiro trabalhou como observador avançado e... 300kilos para o homem, em grande!
De resto tivemos o Brazuka, o Bruto e o Reis a defender posição, ficaram logo no início a mandar canhoadas para o pessoal que pretendia passar. Era só o que faltava, irem para distância, lenha nos gajos e venham para o chão.
Agora sobre o voo de ontem.
O início foi muito difícil (tecto a 1300m), mas isso já é habitual.
Até Madalena (km60) temos de voar em condições de sobrevivência total.
Transições muito curtas, tecto baixo e muito azul. No fundo é aguentar no ar, e esperar que o vento nos leve. Em Madalena o tecto já batia os 2000m.A partir dai as coisas são "menos" dificeis. Começam a aparecer mais cumulos. No entanto o dia era algo anormal, a térmica era muito turbulenta, e quase impossível de centrar. Tive de me empenhar para a asa não andar a largar peças pelo caminho...
Em Monsenhor Tabosa (km120)o tecto já atingia os 2400m (o chão está pelos 200m). Os cumulos começavam a ficar mais apetitosos e surgiam as primeiras linhas de confluência, se bem que curtas.
A partir de Poranga as coisas melhoram significativamente, confluências mais definidas. No entanto era necessário decidir o alinhamento a seguir muitos quilometros antes, pois as descendentes são brutais, e o vento não permite andar a "passear" de um lado para o outro à procura da térmica (que inveja que eu tenho das Delta).
Depois de Poranga é que o Ceará mostrou "com quantos paus se faz uma canoa"!
Percorri muitos quilos de borla debaixo das confluências. É necessário ter o cuidado para não cair fora delas, e temos de saber escolher muito bem a faixa de altitude de trabalho. Ir junto à base implicava perder muito tempo, e tb estava freskote (tecto a 3000m). Por isso era andar ali a boiar entre os 2700 e os 2400.
O final de dia foi fabuloso. Foi a "cereja no topo do bolo". Depois de um dia em que andei horas a levar porrada da velha, um final de voo com termal suave e a poder apreciar a paisagem... Beleza!
O final do meu voo foi sobre uma zona de floresta com uma única estrada de terra. O cenário é bonito, o vermelho da terra a contrastar com o verde.
Aquela zona marca o início da Amazónia, com um floresta ainda baixa, mas numa clara mudança da paisagem relativamente ao Sertão, em que tudo é muito seco...
As aterragens, essas são escassas. Mesmo na estrada existem poucos locais, dado que as copas das árvores fecham a estrada e a essa hora não há vento ao nível do solo. E com a restituição é necessário muito espaço para por o estojo no chão. No final, 336 kilos em 8h30 de voo. O vento deu uma ajuda e consegui uma média bem melhor do que no voo anterior. Hoje não fui voar. As recolhas à brazileira a funcionar no seu melhor.
Cheguei ao hotel já depois das 7h, e já tinham saido os primeiros transportes para a descolagem. Mas também não faz mal, o vento esteve muito forte e atravessado. Descolaram muito poucos pilotos de parapente. O vento e o power da termal eram de tal forma que eles nem sequer conseguiam penetrar, esbarrando na parrede
da térmica e a irem direitinhos para o chão.Um pilto brasileiro de parapente relatou que fez vários SIV´s seguidos numa encosta por trás da descolagem!
Ao que parece houve um acidente com uma Delta, fez tumbling e partiu. O gajo não conseguiu abrir o reserva, e terminou por cair em cima de umas árvores. Tanto quanto ouvi, ele magoou-se mas estava a caminhar, perdeu os instrumentos e por isso não consegue dar as coordenadas do local. Para ajudar à festa não há pilotos a voar hoje para indicar a posição desta delta, e devem estar uns 45º no solo; Acabei de saber através do Chico Santos que o Heli está a chegar agora ao local, e a viatura de assistência está próxima.
Por certo que regressarei ao Ceará para voar. Por isso vão pensando quem quererá vir e juntar-se ao Team Outsider para XC no seu melhor.
Na classificação provisória que afixaram estou em 1º lugar. Mas ainda não constam lá os descartes, pelo que deve vencer a prova o Thomas Brauner e o Navalho em segundo.
Navalho
quarta-feira, novembro 14, 2007
Recorde Mundial, 461,8km!!
por Rafael Saladini
Hoje completamos 31 dias no sertão nordestino e a cada dia que passa o recorde mundial parece mais distante.
Os ânimos já estão completamente abalados, a pressão de ter passado tanto tempo em busca de um objetivo já há muito tempo pesa em nossos ombros, e não resta mais muita motivação e nem muitos dias. A situação atual também não é das mais confortáveis, pois durante o XCeará muitos pilotos começaram a copiar nossa estratégia de decolar bem cedo e sobreviver durante a manhã, o que nos pressionou psicologicamente ainda mais.
Afinal não seria justo após tantas tentativas e tanto estudo do local, chegar um estra
O mais importante naquele momento era tentar abstrair toda a pressão e confiar em nossa própria capacidade.
O dia amanheceu azul prometendo condições perfeitas para bater o recorde. No entanto, durante os momentos iniciais do vôo, o cenário foi mudando radicalmente, com uma camada de stratus densa condensando acima dos primeiros cumulus do dia e sombreando a rota. Um desânimo inicial quase atrapalhou o dia que proporcionaria o primeiro vôo acima de 450km no Brasil.
Meu vício de abrir a cortina do quarto para checar a condição pela manhã não existe mais.
Prefiro não mais ter opinião sobre o dia antes de chegar a Monsenhor Tabosa voando. Mas logo na subida da rampa, já havia uma densa camada de humidade em médias camadas da atmosfera desanimando muito os pilotos.
Alguns pilotos até riram quando colocamos a vela em posição de decolagem, o cenário indicava um prego logo atrás da rampa em Custódio.
Havíamos combinado em voarmos juntos para acelerar a velocidade média até o fim do dia. A dúvida era saber se isso seria possível, afinal voar dez horas completamente juntos no mesmo ritmo seria extremamente difícil.
Decolamos as 7:20h completamente desacreditados pelos que nos observavam. Alguns outros pilotos corajosos decolaram no mesmo horário. Logo na saída o plano de voarmos juntos já não funcionou. Nos separamos na primeira térmica e acabei saindo da rampa em companhia de Francisco Ceará e André Modelo, enquanto Frank e Cecéu resolveram esperar mais alguns minutos.
Minha saída foi desastrosa, minha segunda térmica praticamente não existiu, eu acabei me separando de todo mundo e fui para uma altura crítica próximo a serra do padre (km 15).
Cheguei a 150 metros de altura embaixo de uma região completamente sombreada, eram quase 8:00h e minha situação não era nada confortável. Com muito custo consegui encontrar uma maneira de sobreviver e voltar para o vôo.
Cecéu e Frank saíram um pouco atrás também em situação complicada, cruzando uma extensa região húmida e muito sombreada. Conseguiram sobreviver se arrastando pelos monólitos daquele inicio de vôo. Enquanto isso, André e Ceará deslocavam-se por uma rota um pouco mais a direita e já enga
Minha ansiedade era grande, mas ainda restavam mais de 9 horas de vôo. Quando avistei Frank e Cecéu juntos a cinco quilômetros de mim, pensei que poderíamos facilmente conectar em pouco tempo. Errado.
Como era muito cedo e os ciclos ainda estavam bem curtos, não consegui me manter no mesmo lugar e fui obrigado a continuar adiante sozinho até que eventualmente eles pudessem me alcançar para juntarmos o grupo.
Antes de Madalena chegamos a ficar bem próximos, mas como minha linha de térmicas estava funcionando bem melhor, acabei me adiantando ainda mais em relação a eles.
Frank e Cecéu escolheram uma linha complicada, que os manteve o tempo inteiro com a corda no pescoço até o platô de Monsenhor Tabosa.
O resumo desse inicio de vôo era um cenário complicado, com nuvens estratificadas em camadas médias da atmosfera filtrando muito o sol já fraco da manhã, o grupo desmantelado com Cecéu e Frank juntos não conseguindo se deslocar satisfatoriamente para me alcançar, eu totalmente sozinho à frente com um medo enorme de cair, André e Ceará com 10km de vantagem e a total certeza de que se sobrevivêssemos a manhã, facilmente chegaríamos nos 400kms.
Mas nós tínhamos um problema, uma dupla de pilotos extremamente competentes e capazes, voando juntos a nossa frente. Isso significava que estávamos atrasados. Minha ansiedade em conseguir me aproximar da dupla era tão grande quanto a minha ansiedade em conectar com Cecéu e Frank. Resolvi acima de tudo controlar minha ansiedade e mentalizar sobre a minha real situação. Correr sozinho não adiantaria nada e seria assumir um risco muito grande para a hora. E mesmo que conectasse com André e Ceará, pilotos antigos e experientes, acredito que sozinho não teria condições de influenciar nas decisões deles.
Minha ideia era atrasá-los ao máximo para dar tempo ao Cecéu e Frank de me pegarem. Optei por confiar na capacidade do nosso trio para pegá-los mais tarde. Decisão conservadora que talvez tenha sido importantíssima para ajudar o grupo. Assim que pulei para o platô de Monsenhor Tabosa, voando burocraticamente consegui dar tempo para que meus companheiros se juntassem a mim.
Fiquei enrolando numa bolha fraca para delinear a linha de perturbação para que eles tivessem mais segurança em pular mais rápido e mais baixo. Funcionou.
Estávamos no km 110 e finalmente conectamos o time. Um recorde mundial estava sendo construído naquele momento.
André e Ceará cruzaram a serra de Tabosa e rapidamente entravam na planície de Nova Russas com uma vantagem considerável. Nós nos arrastamos pelo platô em seu teto de 700m do chão. Logo no final do platô me desconectei brevemente, pois encontrei um miolo térmico excelente que me colocou 400m mais alto que os dois, e para tentar pressionar André resolvi me atirar, mesmo não estando na base da nuvem, em sua direção para tentar obrigá-lo a abandonar sua térmica para não me deixar alcançá-lo. A estratégia funcionou muito bem, André aproveitou que já se encontrava em boa altura, para abandonar sua térmica e me tirar a referência. Mesmo assim foi possível encontrar a mesma térmica e assim delinear mais uma para adiantar meus parceiros.
A idéia de voarmos juntos era excelente e só traria benefícios, caso ocorresse de fato. Um exemplo da difi
Acabou caindo por volta de 11:00h perto de Nova Russas.
O trio seguia forte, e mesmo não coincidindo muito bem com os ciclos, conseguíamos nos deslocar com uma boa velocidade média para o recorde. André estava voando muito bem e com um timing de ciclos térmicos praticamente perfeito, enquanto nós, sempre 10km atrás,nos arrastávamos sem conseguir pegá-lo. Nosso ritmo foi razoável no trecho Nova Russas (km175) – Pedro II (km270).
Rastreávamos de forma eficiente e amistosa, o espírito de grupo que imaginamos em nossas conversas finalmente tomava cara, éramos um só organismo.
Uma atitude próximo a Pedro II-PI confirmou. Colocamo-nos numa situação complicada e sobre pressão.
Chegamos a Pedro II numa altura crítica para a hora, 500m do chão ás 14:20h, e estávamos presos a uma térmica extremamente fraca que nos tomaria muito tempo para subir, e tempo era uma coisa que não tínhamos, o relóg
Afinal o objetivo do grupo não era o Xceará e muito menos acumular mais um vôo de 300km. Resolvi partir para a agressividade em prol do grupo. Avisei meus parceiros pelo rádio que arriscaria todas as minhas fichas numa nuvem logo após Pedro II.
A resposta foi sensacional: “Se um vai, tem que ir todo mundo. É recorde ou chão!!!”
Um açude grande logo após a cidade de Pedro II com uma nuvem enorme muito bem formada bem acima dele era nosso destino. Nossa bem desenvolvida análise de nuvens não poderia falhar naquele momento tão especial do vôo-livre brasileiro, com três pilotos do mesmo país na iminência de quebrar o recorde mundial juntos.
Eram quase 14h30minh e estávamos beirando os 300 km de vôo, ainda tínhamos mais 3 horas de vôo e pouco menos de 150km para o recorde. Nosso maior medo era entrarmos atrasados no ciclo daquela nuvem, um erro seria fatal naquela altura.
Cruzamos o açude e não batemos em nada. Na verdade erramos na navegação, e para a nossa sorte o erro ainda era contornável, pois usamos o chamado ângulo do desespero, quando não resta mais muita opção, o jeito é jogar 90 graus em relação ao vento para encontrar qualquer linha de perturbação que possa ajudar.
A teoria ajudou na prática. Jogamos para a direita, batemos numa linha ativa, que era a linha ativa da nuvem, e em meio a uma falhadeira, acabamos encontrando um miolo de uns 3m/s que melhorou bastante nossa situação. Rapidamente estávamos em uma altura confortável e suficiente para continuar nos deslocando.
Fizemos uma pequena transição até a nuvem seguinte, onde finalmente atingimos em cheio o ciclo, nos posicionando muito bem para o horário, 14:40h na base da nuvem a apenas 15 km de PiriPiri-PI (km
Uma desconfiança de que o recorde de fato poderia ser batido começava a nos angustiar. Na transição para PiriPiri enxergamos André muito baixo tentando sobreviver um pouco antes da cidade. Ele de fato cometeu um erro fatal em ficar tão baixo por ali e acabou pousando. Apesar de ter a certeza de que mais cedo ou mais tarde o pegaríamos, um alívio tomou conta do grupo, afinal a partir de agora tudo só dependeria de nós.
O cenário a frente não era dos melhores. Apesar de sempre termos lidado com cirrus e adversidades naquela região final do vôo, aquele céu por um momento nos assustou, pois estava muito húmido e com nuvens estratificadas em camadas médias e baixas da atmosfera.
O deslocamento até Barras (km 375)foi muito bem estudado e sem grandes emoções, passamos a direita da cidade um pouco antes das 16:00h.
Ainda tínhamos 1h e 45m para o pôr-do-sol, que estava marcado para as 17:43h de acordo com o GPS. Para homologar um recorde devemos cumprir com as regras locais de aviação, e no Brasil aeronaves sem instrumentos adequados para navegação noturna, devem pousar antes do horário do pôr-do-sol.
A partir de Barras-PI tomamos decisões rápidas e estratégicas para nos posicionarmos bem naquelas horas finais.
O maior desafio foi conter a ansiedade para manter a velocidade média, que é sem dúvida o ponto mais importante para atingir o objetivo em tempo hábil. O maior problema de voar o dia inteiro é ser capaz de adaptar-se as horas do dia, ou seja, durante a manhã não é necessário ter pressa e assumir muitos riscos que podem facilmente te colocar no chão.
A partir das 11:00h a condição já começa a arredondar e já torna-se mais confiável, permitindo um deslocamento mais agressivo e constante, mas o problema principal é durante o final de tarde, quando o piloto já vem com um ritmo acelerado das horas mais fortes do dia e não percebe que chegou a hora de desacelerar o ritmo para não cair. Pilotos demasiado agressivos podem até ter a sorte ou encaixar-se perfe
Comparo essa transição do meio para o final da tarde com a chegada de uma longa viagem, onde o condutor entra em área urbana num ritmo de rodovia, acima do limite de velocidade e como já está bem perto de casa (recorde) acaba relaxando e perde a concentração pelo cansaço. São nessas circunstâncias que acontecem grande parte dos acidentes. Portanto, assim como dirigindo, é sempre importante manter a concentração e o foco até o final, pois um pequeno erro pode custar caro. Aprendi isso durante dois grandes vôos que realizei em Quixadá, pois quando me aproximava do final deixava minhas emoções tomarem conta das minhas decisões, me atrapalhando a ponto de não me permitirem cumprir meu objetivo. Cai duas vezes a beira de transpor os 400 km por isso.
Em Barras-PI, tomamos talvez a decisão mais sábia do vôo inteiro, forçando quase 90 graus para a direita em direção a uma linha de perturbação que se encontrava acima de uma seqüência de fogueiras. A nuvem que estávamos de olho na verdade nem funcionou direito, mas fomos obrigados a subir bastante tempo em 1,5m/s até a
E assim foi, eram 16h30 quando cruzamos a barreira dos 400 kms, ainda restavam 1h e 15 m de vôo, estávamos juntos e só faltavam 23km para o recorde.
Uma euforia tomou conta do grupo e fui muito bem ciceroneado por Marcelo Prieto que nos deu as boas vindas pelo rádio ao seleto grupo de pilotos que passaram dos 400kms. Mas ainda faltava mais um movimento para ganharmos o jogo. Mais uma térmica.
Os planeios após a barreira dos 400 km foram tensos. Eu e Marcelo nos mantivemos frios e céticos até estarmos acima da marca dos 423 km, enquanto Frank já comemorava e já tinha certeza de que bateríamos a marca facilmente.
O “go to”do GPS era Miguel Alves-PI (km 455) desde o início do vôo e depois de tudo que passamos, estávamos a pouco mais de 40km da cidade e apenas a 10km do recorde mundial de distância livre. Era o momento de encontrarmos mais uma para garantir.
Alinham
Nosso instinto funcionou muito bem durante todo o vôo e não seria agora no final que seria diferente. Encontramos um miolo excelente para o horário que nos colocou de volta acima dos 2000m de altura.
Era hora de controlar friamente as emoções, pois o recorde mundial havia sido batido, porém nosso objetivo era Miguel Alves-PI e faltavam ainda 30km. Um dos highlights do vôo sem dúvida foi a chegada ao rio Parnaíba, divisa de estados entre Piauí e Maranhão.
Esse planeio foi emocionante. Como falamos desse momento durante tanto tempo, enfim nosso sonho se realizava, 445km de Quixadá e a gente realizando nosso último planeio em direção ao tão sonhado Rio Parnaíba.
Chegamos lá a 200 metros de altura acima de uma queimada onde encontramos bolhas bem formadas e constantes. Era definitivamente um momento de contemplação.
Enfim estávamos 100% realizados, após tantas tentativas, tanto comprometimento e dedicação. Durante o planeio até o rio, sem dúvida foi o primeiro momento durante todo aquele vôo que consegui relaxar, após 10h e 10m de pura atenção e adrenalina, a cabeça estava livre para pensar em outras coisas. Fiz uma retrospectiva de toda a minha trajetória no vôo livre e agradeci muito a todos os personagens que me ajudaram a estar ali.
Lembrei muito de André Fleury, que certamente estaria ali do nosso lado na parceria caso já estivesse em condições. Definitivamente aquele recorde mundial só estava sendo alcançado no sertão nordestino brasileiro, graças aos esforços de André Fleury e Marcelo Prieto, que durante muitos anos dedicaram seu tempo e conhecimento para desven
A janela agora rompia a casa das dez horas voáveis. Com o grande diferencial de vento forte e condições meteorológicas perfeitas. Olhei para o Cecéu ainda em vôo do meu lado com profunda admiração, afinal eu fui abençoado de tê-lo como professor e sou abençoado de tê-lo como amigo. Sei que pra ele aquele momento era tão especial quanto pra mim. Não por simplesmente quebrar o tal famoso recorde mundial de distância livre em Parapente, mas por ser recompensado em grande estilo depois de tanta busca e perseverança.
Foram longos dias fora de casa, suportando muitas críticas, inveja e pressão. E pensar que nada disso foi em vão. O regime de quartel que sempre fizemos questão de impor para manter nossa disciplina, enfim rendia-nos bons frutos.
Subíamos a quase 2,0m/s constante acima do Rio Parnaíba em direção a base da nuvem, eram 17:25h e não tínhamos muito tempo para pousar.
De fato é contra meus princípios não cumprir com certas regras de segurança, entretanto após o pôr-do-sol ainda restam pelo menos quinze minutos de luz que permitem perfeitamente pousar em segurança. Se eu não estivesse voando nessas circunstâncias certamente eu aproveitaria cada segundo disponível de luz, porém decidimos abandonar nossa última térmica que nos levaria para os 500km para garantir a homologação do recorde. É justo.
A vegetação do Maranhão já é bem húmida e verde, com árvores e coqueiros enormes que limitam em muito as opções de pouso. Em nosso planeio final ficamos um pouco apreensivos, pois b
Seguimos uma estrada de terra até uma pequena vila chamada Santana Velha, onde aterrizamos num pequeno campo de futebol.
Fomos muito bem recebidos e até um bom arroz e feijão foram servidos bem ao estilo da região. Os locais nunca haviam ouvido falar daquele pedaço de pano voador e por ali nunca havia passado nenhum tipo de aeronave parecida.
Perguntavam-nos se havíamos pulado de um avião, e quando explicamos que havíamos saído de Quixadá-CE, fizeram aquela cara de quem está ouvindo mentira. A melhor explicação nessas horas é sempre a mais rápida de se entender, portanto dizíamos que um vento muito forte havia nos levado para lá, em parte era uma grande verdade. Sem dúvida esportes como o vôo-livre parecem muito imprevisíveis, pois só conseguimos enxergar as cicatrizes deixadas pelos fluxos, mas nunca enxergamos os fluxos em si. Talvez por isso seja tão incompreendido por todos e encarado como um esporte tão perigoso.
“É muita coragem...” – a frase mais falada na vila. De fato para quem não pratica deve ser loucura.
Afinal passamos mais de dez horas pendurados naquelas linhas a milhares de metros do chão, tomando centenas de decisões, dentro de uma massa que mal enxergamos. Em Quixadá comparo o início do vôo a um rafting, onde a única opção é seguir a correnteza. Mas por mais que pareça uma loucura, existe muito estudo e conhecimento por trás. Seguimos o plano.
Decolamos no coração do Ceará, sobrevoamos todo o estado do Piauí e chegamos muito próximos a região amazônica no Maranhão. Cruzamos uma grande parte do sertão nordestino. Os três juntos. A quebra desse recorde não é simplesmente o rompimento de uma barreira numérica, mas também a prova de que o vôo-livre não necessariamente precisa ser um esporte individual e egocên
Nosso sonho de trabalhar em equipe funcionou. E a equipe não se resume apenas aos pilotos no ar, não podemos esquecer de nosso digníssimo resgate Dioclécio, o Dió, e da SOL Paragliders, que desenvolveu essas velas maravilhosas e nos apoiou muito na conquista.
Quando decidimos voar juntos, sabíamos das adversidades. Somos totalmente programados para competição, portanto nunca olhamos para o piloto ao lado como nosso companheiro, e sim como nosso adversário que devemos em algum momento dispensá-lo.
As vitórias são individuais e não existe espaço para mais de um piloto nos degraus do pódio.
Quando iniciamos nossa busca pelo recorde em Outubro, me peguei em diversos vôos competindo com meu companheiro Cecéu, quando na verdade deveria apenas ajudá-lo e ser ajudado. É sempre muito mais fácil para todos voar em grupo, mas o difícil é transformar esse grupo em um time. Frank em pouco tempo voando ao nosso lado, entendeu nossa filosofia e já fazia parte dela. Foi uma filosofia também iniciada por André Fleury e Marcelo Prieto, e estamos todos extremamente realizados por ter tido a oportunidade de colocá-la em prática de forma tão perfeita e harmônica, culminando em um Recorde Mundial de Distância Livre. A Expedição XCNordeste 2007 finalmente chega ao fim.
Foram 31 dias investidos em Quixadá, Ceará, Brasil. Três recordes importantes batidos, dois sul-americanos e um mundial de distância livre. Quatro vôos muito importantes (397 km, 414 km, 398 km e 461 km). Mais de 3.000km voados e mais de 8.000km rodados pelo nosso resgate. Sem dúvida um sucesso.
Tenho a certeza de que após anos investindo pesado nas Expedições XCNordeste, Ary Pradi deve estar muito satisfeito, afinal três pilotos da equipe
A SOL, o Ary e os pilotos merecem. A equipe SOL gostaria de prestar um agradecimento muito especial a Cláudio Henrique Landim de Fortaleza por todo o seu apoio durante a Expedição XCNordeste 2007.
Abraço a todos e que venham os 500km...
Até 2008...
Rafael Saladini
Recorde Mundial - 461,8Km em 14.11.07 por Marcelo "Ceceu" Prieto, Rafael Saladini "Sardinha" e Frank Brown - SOL Tracer 11.
Fonte: SOL Paragliders
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sábado, novembro 03, 2007
Enfim, os 300 km!
por Olympio Faissol
Com dois vôos de mais de 9 horas em Quixadá, realizei meu sonho de voar 300 km. Os vôos, de 359 km e 335 km, podem ser visualizados aqui: 359 km e 335 km
Deixarei os relatos para algum momento tedioso de inverno.
Quixadá realmente é o céu e o inferno.
No primeiro dia, em que o Rafa bateu o recorde sul-americano, com 397km, pousei às 8h00. Voltei correndo para a rampa de moto-taxi. Na segunda decolagem, puxei a vela antes de uma rajada e voei de ré para o rotor, passando maus momentos.
No dia seguinte, a condição estava ainda melhor, com mais nuvens e organizada. Fiz 100km em 2 horas, caindo às 11h00, num venturi ao norte de Tabosa. No momento em que caí, pensava se teria de passar pela mesma, horrenda desilusão do ano passado. Não voltaríamos a ter um dia tão especial como aquele...
Continuei a lutar, mas a condição insistia em azular por volta das 11h00, quando as térmicas passavam a ser falhadas e com cisalhamento. E aí surgia o dilema: seguir lentamente pelo azul ou descansar para o próximo dia?
Somente no domingo (21/10), cravaria os 300. Nesse dia, foi o Rafa quem caiu cedo. Juntos teríamos feito muito mais do que os 335 km que voei (em zig-zag). Cheguei em Piripiri por volta das 16h15, com uma hora e quinze de vôo pela frente. Mas um congestus enorme desaguava sobre a planície no Piauí, fechando a rota para Barras, que estava a um planeio. Não importa, já estava satisfeito.
A verdade é que nenhum dos dias em que voamos foi completo (vento forte e alinhado ao longo da rota, cumulus abundantes e ausência de cirrus). No dia seguinte ao meu vôo, o Cecéu bateu a marca do Rafa, voando 414 km, o primeiro vôo de mais de 400 em território brasileiro. Pegou cirrus na perna final, vendo as chances de derrubar o recorde mundial irem por água abaixo. Uma pena... Mas é muito provável que o recorde caia em território brasileiro nos próximos dias (nota ed.: o recorde mundial foi batido em 14/11 por Frank Brown, Cecéu e Rafa, com 462km).
Meu segundo vôo longo, de 359 km, foi uma lição de que só se pode dar o dia por terminado ao colocar os pés no chão. O vôo começou com condições clássicas, mas azulou no km 70. Daí em diante, fui me arrastando pelo azul até pouco antes de Crateús (rota para leste, um pouco ao sul da tradicional). A condição voltou a arredondar somente no km 160, quando já havia salvo o dia a menos de 50m do chão. Nesse dia, o cirrus voltou a nos atrapalhar. Pousei às 17h00, sem fazer o planeio final, porque a última térmica do dia já era muita fraca para me tirar do chão. O Rafa, que voava uns 15km à minha frente, dispensou o lastro, pousando às 17h40, com 398km.
Nada como a ambição humana... Agora é natural querer os 400. Mas a verdade é que - como disse um escritor mexicano - a Deusa do êxito é uma puta. Sempre haverá pilotos voando mais longe e mais rápido... Quem se apegar demais às cifras, fatalmente terá decepções.
Olhando para trás e fazendo uma retrospectiva dos últimos 6 anos, em que o cross-country tornou secundários todos meus demais interesses, voar mais de 300km terá sido o ponto alto da jornada. E, ainda assim, é uma parte pequena dos muitos momentos espetaculares que esse esporte me proporcionou.
Definitivamente, para mim, o vôo de distância livre põe em cheque qualquer concepção do que seriam, para aqueles que não voam, as férias ideais. Um dia, quando for obrigado a ver pontos turísticos, visitar restaurantes e museus, lembrarei dos gloriosos dias de XC. E, então, olharei com certa incomodidade para o céu e as nuvens, tentando afastar, em vão, a nostalgia dos bons tempos...
terça-feira, julho 17, 2007
Castelo de Vide-Plasencia, 127 km

por Gonçalo Velez
A descolagem de Castelo de Vide, próximo da Senhora da Penha, tem uma paisagem cativante de planície a perder de vista. O terreno não está limpo e coloca-se a asa em cima das ervas e dos arbustos, dá-lhe um ar mais selvagem e montanheiro.
Descolámos com muito optimismo pois a previsão do dia era promissora.
No entanto, os primeiros a fazê-lo, Nuno V, David A, Pedro L e Paulo R, estavam com muita dificuldade em ganhar altitude: enrolavam para trás do monte e regressavam à frente à procura de melhor térmica.
Depois de descolar reparei que por cima da descolagem a térmica era boa e constante e aí me mantive, para depois me juntar ao Eduardo que tinha subido mais ao lado.
Já não me lembro quem virou costas ao vento em primeiro, mas lembro-me de me sentir farto de não conseguir subir mais e de deixar-me ir para trás, mesmo com pouca altura (1240m), ou 500m acima da descolagem!
Quase sempre esta medida de descarga de impaciência dá um mau resultado, mas a intenção era ir explorar outras paragens pois ali só se “estagnava”.
Julguei que encontraria ascendente por cima da vila e do monte do castelo de Castelo de Vide, mas nada. Continuei para sotavento sempre a descer, o Eduardo mantinha-se alto, sobrevoei longas lajes de rocha, sentindo-me muito baixo abri a selette, mas felizmente recuperei a oeste de uma estação de combóios entre C Vide e Marvão, Beirã.
O Eduardo esperava, juntei-me a ele, e seguimos. Atravessámos a planície a oeste de Valência de Alcântara enrolando outra térmica, que era formada de bolhas com muita deriva. Aliás, a maioria das ascendentes do dia até aos 1600m eram bolhas arrastadas pelo vento.
O dia estava muito seco e as condições eram duras, àsperas, o vento forte e a turbulência era constante e tornavam a asa sempre muito agitada. No entanto, as térmicas não eram potentes.
No final da planície volto a estar muito baixo, o Eduardo mais alto enrolava numa térmica para oeste, sigo por cima de campos de oliveiras sempre a baixar. Desaperto a selett
e, mais adianto encontro-me a menos de 50m do chão e tiro as pernas para fora, mas sinto-me ser levado por uma bolha e deixo-me ir com a deriva. Passo por cima de um cabo eléctrico que era a minha referência para aterrar, e sinto-me a subir ligeiramente mas a viajar, percorrendo esse território de oliveiras. A térmica torna-se mais consistente e subo com melhor rendimento. Em pouco tempo tenho um bando de abutres a partilhar a ascendente e a girar comigo.
O Eduardo que girava numa térmica mais fraca veio juntar-se a nós. Subiu mais rápido e pisgou-se em transição para NE.
Mantive-me a enrolar e vejo-o a descer imenso na direcção do Tejo. Vejo-o já longe e muito perto da margem direita sobre as oliveiras e pensei “Para que foi ele para ali, coitado?! Já não se safa…” e mantive-me alto. Foi aqui que nos separámos por que depois vi-o a recuperar lentamente e deixei de o ver.
Adiante subia-se mais e comecei a ultrapassar os 2000m e a caír pouco. O vento intensificava-se e às vezes acelerava brutalmente misturado com térmica, o que se traduzia em muita turbulência. Cheguei a observar 80 kmh no gps!
A meio do voo dei-me conta de que já não aguentava os abdominais, com tanto solavanco e esticão estava a sofrer os efeitos de voar com o ventral todo aberto e demasiado deitado na selette! Endireitei um pouco o espaldar da cadeira mas o mal já estava feito… Comecei a voar com grande incómodo.
Tinha furado o cantil na descolagem e não tinha bebido durante o voo, e devia estar bastante desidratado, o que não ajuda à recuperação do esforço.
Passei sobre uma grande albufeira do Tejo a 1700m e, para meu espanto, reparo nos sulcos à superfície da água criados pelas rajadas de vento!
Como não tinha presente a previsão do vento ao long
o do dia, achei que as condições podiam ter-se tornado demasiado agressivas, facto que me preocupou bastante.Decidi voar em frente e aterrar onde fosse. No entanto a sustentação era muito grande e voava uma maioria de tempo sobre ascendente.
A paisagem era formidável e já via à frente a serra de Gredos encimada de uma série de cúmulos. Pensei que talvez esses cúmulos me pudessem tornar o voo mais confortável, mas nunca os alcancei…
Passei os 96 km, a minha distância de 2006, e dado o meu cansaço achei que já estava satisfeito. Fui deixando baixar-me a pouco e pouco, estudei uns campos perto de uma aldeia, abri a selette e já muito baixo, com as pernas de fora, preparado para aterrar, volto a sentir ascendente!
Não resisti à tentação e enrolei com convicção pensando que “ainda não chegou a hora, faço mais um esforço!”.
Voltei a atingir os 1500m e deixei-me ir… Via ao longe uma cidade na base do monte junto a uma lagoa encravada entre encostas que vim a saber ser Plasencia.
Passei o meu recorde anterior de 111 km e achei que ficava nos 115 km, mas as c
ondições pareciam-me fáceis com tantas bolhas a empurrar-me e deixei-me seguir em frente, sem procurar ascendentes, até que aterrei nuns campos herbosos perto de uma manada de vacas aos 127 km de voo (4h11), cerca de 3 km a sul de Plasencia. Aterrei quase na vertical mas o vento não estava tão rijo quanto temi. Muito obrigado ao Eduardo pela excelente companhia e por ter esperado por mim no início, parabéns pelo voaço!
Muito obrigado ao Nuno Girão e ao Pedro Lacerda pela recolha!
O meu voo na Liga XC Portugal. Voo realizado em 14.07.07.
Fotos: Iva Saiote, Ana Fernandes, Eduardo Lagoa.
Castelo de Vide-Talayuela, 169 km

por Eduardo Lagoa
Em primeiro lugar queria agradecer a disponibilidade da nossa equipa de recolha (Pedro Lacerda, Girão) o meu muito obrigado.
Dou os meus parabéns ao Gonçalo Velez, pelo seu trabalho na primeira fase do voo (primeiros 30km) foi igual a si próprio nunca desistiu, esteve quase aterrado por quatro vezes mas lá foi rapando o fundo: ”Fantástico”.
Acho que este voo foi possível, com aplicação de muita arte e engenho em dias de sobrevivência (Primeiros 30km) voávamos entre os 1000 e os 1500m.
Fiz uma boa leitura das condições do dia, todos os outros pilotos chegavam aos 1500m e não dava mais estava ali montada uma inversão e com vento à mistura não era apetecível virar costas e ir embora.
Fiz um primeiro voo e não passava dos 1400m decidi fazer toplandig, esperei um pouco e voltei a descolar no momento certo, quando chego aos 1400m parou de subir mas eu continuei a enrolar e deixo-me ir com a deriva pois estava muito baixo e não dava para virar costas ao vento.
Nos primeiros 30km fiz transições curtas e muito tempo a enrolar em deriva, muita paciência porque acreditava que na frente estaria melhor o que se veio a confirmar ao km 30 e qualquer coisa a primeira térmica de jeito 2200m.
Até aqui vim sempre com o Gonçalo, eu por cima e ele por baixo. Ao km 40 o Gonçalo decidiu ficar para trás a subir uma térmica e eu começo a fazer uma transição mais longa e a cair bastante mas com o objectivo de encontrar uma t
érmica junto de uma linha de água. Cheguei baixo mas lá estava ela começo a subir e logo de seguida levo um embrulhanço, fico a olhar para a asa, estava preocupado em controlar a situação. Quando ponho os olhos no horizonte tinha á minha volta mais de 20 abutres. Eu penso que foi um rotor gerado por eles que provocaram este fechaço!!!!! Mas claro esta foi a primeira grande térmica do dia mais de 3000m, a partir daqui passei a fazer o voo entre os 2000 e os 3000m assim já era possível observar a paisagem soberba que tinha como pano de fundo o rio Tejo. Nos últimos 30 km fiquei com muitas dúvidas daquilo que devia fazer, se ir para a montanha (serra de Gredos) ou continuar pelo plano, já cansado optei por seguir pelo plano porque se o voo tinha sido muito duro por causa do vento e da turbulência que havia, não me achava capaz de enfrentar uma montanha daquelas.
Perto do fim fiz umas opções que não deram bom resultado e baixei dos 2000m, aqui voltou outra vez a sobrevivência, mas lá fui andando de povoação em povoação até aterrar no meio de uma plantação de tabaco ás portas de Talayuela.
Acho que foi um bom voo (169 km, 5h21), mas no fim poderia ter feito melhor!!!
Venha lá o próximo!
Eduardo Lagoa
P.S. Já podem ver o voo na liga XC Portugal.
segunda-feira, abril 16, 2007
Dicas Básicas para Voar Térmica

Um resumo para principiantes
Mal o vario apita deixar ir em frente, mal ele abranda virar para o lado em que se sente mais pressão no manobrador: o lado do núcleo.
Só interessa enrolar uma térmica desde que se oiça o vario apitar durante 3-4 seg consecutivos. Quanto mais tempo ele apita mais larga é a térmica.
O “deixar ir em frente” permite-nos saber qual o diâmetro da térmica, de que lado está o núcleo e qual a sua intensidade.
Virar sempre largo para explorar o conteúdo da térmica, apertar a curva sempre que o vario enfraquece. Não apertar a curva se o vario não enfraquecer! Pretende-se rodar largo e travado, a baixa velocidade, para maximizar o tempo em que se está na ascendente.
Em voo de transição, manter uma pressão ligeira nos 2 manobradores e rodar ligeiramente para o lado em que se sente aumentar a pressão, mesmo que ténue. Às vezes é a franja de uma térmica. Se o vario continuar a apitar: rodar mais, sempre largo, e corrigir sempre a inclinação da curva consoante o seu som.
terça-feira, abril 10, 2007
Interrogado pelo Man do Dia
Como uma Térmica me Abandonou no Campo de Tiro de Alcochetepor Pedro Lacerda
Fui na tal folga de talhante para a Arrábida ontem e as condições estavam mais ou menos engraçadas: entravam ciclos de sul e de norte daria para descolar para qualquer dos lados, embora parecesse que o norte tinha mais força. Mas estava sozinho e não descolaria para norte sozinho, é um sitio desgraçado.
Telefonei ao pessoal da zona e andava tudo indisponível, voltei para a deco de sul e fui voar. Estavam ciclos fraquitos e não se subia mais que uns 50m por cima da deco e por duas vezes vi a coisa mal parada a ficar baixo, fiquei uma hora nisto sobe e desce até que ganhei um conhé e como a deriva estava a ser com vento de SE fui até ao lado da rampa, olho para a manga antes de chegar e está hirta a apontar para cima foi lindo umas voltinhas e cabum uma térmica a sério finalmente daquelas com força e alegria, estava um cumulo a formar-se por cima do Formosinho e aquilo era tudo da mesma familia bora ai nuvem com ele.
As nuvens estavam como de costume por detrás da serra mas nesse momento aproximaram-se mais e estavam ao alcance, as derivas estavam meias taralhocas e lembro-me de ver oeste o que me fez pensar que estava do lado errado da confluência e que aquela termica tinha rebentado porque o oeste estava a chegar.
Mas até à serra de São Luiz foi àbrir de acelerador metido e a perder pouco enrolar seguir bando termica outra vez, palmela termiks mais complicada acho e ali a linha dividia-se e tinha de decidir pela esquerda rumo mais norte e cúmulos com aspecto gordinho e direita a contornar o Sado e Alentejo eventualmente mas com um ar mais rarefeito.
Voltei um bocadito para Setubal para me colar mesmo à nuvem (paisagem deslumbrante essa da entrada do vale de Setúbal com Tróia ao fundo) e segui para NE o vento e as térmicas tinham derivas um bocadinho taralhocas mas a média parecia-me de vento de SW e tinha razão era o que mais se impunha. Depois de Palmela a linha de nuvens era mais esparsa e era preciso andar com cuidadinho com os ciclos avacalhei uns e ia-me lixando, mas uma térmik de cheiro de merda de vaca lá salvou a cena, ali a começar uma zona de árvores depois do cruzamento das auto-estradas.
O tecto esteve sempre aos 1400m as nuvens funcionavam a barlavento e lixei-me por causa disso, quis ser mais rápido a passar de nuvem para nuvem e caguei num zeranço para arrancar para uma nuvem mais longe, tinha corrido bem até ali aquela também ia correr mas não correu, sobretudo porque congelei quando vi que o campo fixe que tinha ao lado era o campo de tiro de Alcochete e o aeródromo que tinha do outro lado não era um aeródromo civil onde param os taxis.
Granda bico descendente po chão directo. Eu até tenho alguns desenhos mais importantes de espaços aéreos no MLR mas tinha ido abaixo com falta de bateria. Mesmo assim duvido que visse porque uso um zoom muito apertado para perceber isso. Pronto aterrei, passado pouco tempo tenho um jipe de policia da força aérea ao lado com dois policias novos porreiros e acho que motivados para a modalidade.
Avisaram o quartel e deram-me boleia para o Oficial de Dia que era quem ia tratar do assunto. Perguntei se ia ser preso e eles diziam que não a rir e na boa bué interessados como é que tinha chegado ali.
Perguntaram-me se conhecia alguém da FA que podia ser útil no embrulho que se ia seguir. Pensei nisso mas como piada.
Quando conheço o Oficial de Dia vejo que a cena pode ficar muito mal parada, venho cá para fora pego no telefone para falar ao Afonso a dizer onde andava estava a voar. Quando desligo o telefone o policia novo diz-me com um ar sério : olha se tens conhecidos na FA é agora o momento de falares. Ligo ao CGAU e entretanto vem o tal do Dia a dizer que estava detido e não podia fazer comunicações com o exterior, como estava a chamar ainda falei com o CGAU que se riu e perguntou que marca fumava para me levar à xoldra. Ou seja estava a achar entre alguma e nenhuma piada à situação.
Lá estive a ser interrogado pelo senhor do Dia que não deve ter ido às aulas de interrogatório, mas pronto, até que me telefonou o Major Diogo que era o responsável pela segurança me fez umas perguntas de como e porquê etc... e disse que já vinha ter comigo, esperei mais um belo bocado a ser interrogado pelo senhor do Dia.
Ah ainda tive uma boa que foi telefonar à Babeth com autorização do comando, para ser ela a ir buscar o Rafa, e ela não percebia nada do que eu dizia. Incrível parecia um filme um gajo vai preso e no telefonema a que tem direito não consegue porque não há rede.
Ainda à espera, o men do Dia ganha algum embalo devia ter estado a preparar a coisa e começa a ficar mais desconfiado e pediu para trazer o parapente para dentro do escritório e que o abrisse à frente dele. Fui abrindo devagarinho numa de primeira aula de parapente com os alunos etc, ainda não tinha desmanchado nada de trabalhoso sou salvo pelo Major Diogo que entra.
O nível da conversa sobe um bocado grande, este Major era uma pessoa esclarecida e interessante, que me deu um belo sermão com toda a razão, a razão da minha segurança primeiro, depois a das leis etc. Foi como se costuma dizer um gajo porreiro e mandou-me embora.
Ofereceu-me boleia no autocarro da FA que estava de saída para Vila Franca que agradeci e apanhei, voltei para casa de comboio fui buscar o carro à noite à Arrábida.
Fiquei chateado com o ter sido ganancioso na ultima térmica e por causa disso ter ido parar ao chão. Aterrei às 15h ainda tinha bué horas pela frente de dia útil. Só começou a estragar mais ou fim da tarde com os desenvolvimentos a crescerem muito. O Lado Psico do nosso desporto é tramado. Faltou-me a ratice e fui para o chão.
Pronto não vale a pena chorar no leite derramado. Foi a bela aventura.
Lazerda
segunda-feira, fevereiro 05, 2007
Airwave Magic FR3
por Gil NavalhoFiz ontem um primeiro voo com a minha FR3 novinha! O voo já foi ao final da tarde, o vento estava meio fortito mas deu para ter uma primeira ideia do comportamento da asa. As diferenças relativamente à FR2 são:
-A FR3 é maior, pelo que a carga alar é menor. Deste modo, as reacções são muito mais suaves. O pitch quase que é auto-estável;
-É muito menos reactiva e dinâmica que a FR2. A FR2 parecia que tinha a suspensão de um kart (asa com reacções bastante duras e rápidas). A FR3 pareceu-me ser um coordeirinho em comparação com a antecessora;
-Bastante mais sólida, não tem tendência a trabalhar as pontas, não havendo quebras a meio perfil segundo um eixo vertical;
- Gira mais lento que a FR2, mas parece-me que derrapa menos; -Parece-me que o afundamento mínimo é fora de
série. Finalmente vou conseguir ser dos mais altos nas térmicas :-)! Fiquei com a ideia que terá muito bom rendimento em térmica -O acelerador é muito leve, mas ainda não consegui testar os planeios a diferentes velocidades. A asa permanece bastante sólida de acelerador e muito menos reactiva que a FR2; Bastante mais fácil de inflar que a FR2;
-Consegue-se fazer orelhas (algo impossível na 2). A FR2, é de facto uma asa com uma carga alar mt elevada. Na minha opinião não é uma carga alar mais elevada que te prejudica a taxa de subida em térmica. Aliás, para mim a asa que melhor rendimento em térmica é a U3, que tem uma
carga alar ainda maior que a FR2.Em termos práticos com a FR2 tens uma asa com bastante mais pressão interna. No caso da FR2 quase toda a pressão está concentrada nas linhas A, pouca nas B's e nenhuma nas C's. Para teres uma ideia, para conseguires provocar um assimétrico na FR2 é necessário puxar a banda com as duas mãos dada a enorme pressão concentrada no bordo de ataque da asa.
A grande dificuldade em conseguir rentabilizar bem a FR2 em térmica prende-se com o controlo do pitch. Ela é mt sensível e esta variação faz perder rendimento. Sentia isso principalmente em térmicas fracas falhadas, porque se fossem fracas mas consistentes não sentia problema nenhum.Uma carga alar mais elevda dá maior precisão na pilotagem, logo colocas melhor a asa onde queres. Isto poderá ser uma vantagem enorme em térmicas fortes e turbolentas, onde a maioria das asas têm tendência a ser atirada para fora.
O reverso da medalha são as reacções, que com maior carga são mais violentas. É o preço a pagar. Mas a pilotagem é bem mais divertida e...emocionante!
Quanto ao conceito a seguir...? Não sei, há vários conceitos neste momento, e parece-me que todos têm excelentes argumentos. Vamos a ver o que o Mundial nos irá dizer.
terça-feira, janeiro 16, 2007
Usei o Reserva!
Já tive de lançar reserva, depois de a minha asa ter engravatado. Não que a asa tenha desequilibrado com a gravata, mas sim porque tentei desfazer a mesma, e ao fim da terceira tentativa fui demasiado brusca e desequilibrei-me na cadeira para o lado fechado.
Resultado: entrei em espiral, com tal violência que percebi estar fora do meu controlo. Curiosamente não houve espaço para dúvida quando senti a asa "fora da minha mão", e lancei o reserva, que estava montado na zona lateral da cadeira, e do lado engravatado.
A minha grande preocupação foi lançá-lo aparentemente para o lado oposto à tensão que sentia, e aguardar que algo acontecesse de seguida... Foi tudo questão de instantes. Não sei precisar, mas senti ser puxada para cima e de seguida, praticamente erguida pelos ombros, e quando o reserva abriu totalmente, fiquei quase sem me conseguir mexer porque o arnês interno da cadeira não permite grande mobilidade.... ...de qualquer forma tentei recuperar a asa, pois o pêndulo é muito significativo, e os dois equipamentos não são compatíveis a voar.
Acontece que por duas vezes consegui ir puxando as bandas atépraticamente o inicio do tecido da asa, mas depois o vento e a força necessária era tanta, que não fui capaz, e tive que deixar a asa continuar na luta para ficar a voar.... ...e comecei a preocupar-me com a aterragem. E essa sensação de não ter qualquer controlo na direcção da aterragem é muito estranha, pois tanto estava virada a sul, como a oeste, como para norte.
Com as várias hipóteses de aterragem que tinha - telhado de um castelinho, uma seara, um planalto, acabei por entrar por um bosque dentro, passei a zona da copa das arvores com a respectiva desaceleração, mas depois o bosque era oco e cai de cerca de 10 ou mais metros e tive uns quantos dias com dor nas costas e dificuldade em respirar, mas nada partido, a não ser a protecção dorsal da Charly - Scooter, que partiu em três partes, o que me valeu ficar inteira, e a alma.
By the way, o incidente aconteceu porque me deixei ficar sotaventada, com zona de escoamento de vale.
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