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Jan Fabre
Man Measuring the Clouds
1999 Bronze
H295 x W150 x D79,5 cm
por Pedro Lacerda
Fui à Azinha mais o Nélio na segunda, Jul 14.
Dia bombástico, tecto alto, 3 miles e pouco vento. Supostamente de NW mais à tarde.
Planeei ir à torre via Santinha e por ai fora onde se montam as nuvens normalmente. E fui!
Já tinha ouvido falar daquele percurso e da teoria à pratica é mais fácil do que parece, especialmente com o tecto assim tão alto e pouco vento. Cheguei todo contente à torre na base das nuvens. Nunca tinha visto aquele lado da serra, o lado oeste e noroeste da torre, é grande buraqueira, nem nunca tinha ido à torre. Aliás tinha lá passado em puto com os meus pais, foi isso.
Dai para a Covilhã naquela de fazer o triangulo maravilha etc, quando lá chego caguei na decisão do voo habitual e mais isto e aquilo, vi que do outro lado do vale, naquela crista a meio entre a Covilhã e a Gardunha começava a montar-se linhas de nuvens, decidi saltar da Covilhã onde estava alta para lá pelo azul a fora.
Cheguei baixo e não acertei logo na térmica mas com a ajuda dumas águias minhas conhecidas, que já tinha andado por ali, subi baril de volta. O vento era NE mas fraquinho e as nuvens organizavam-se seguindo a tal crista e depois pela Malcata afora, tipo estrada de nuvens salteadas mas direcção Leste perpendicular ao vento.
Segui essa linha até que o vento começou a fazer propagar nuvens para SW e segui à direita na ramada de nuvens que me pareceu mais consistente. Tinha chegado a Penam
acor quando virei à direita e fui andando em frente a seguir as nuvens por aquelas aldeias que têm nomes cómicos e com os Foios à minha esquerda e por cima de Monsanto etc. O belo voo turístico veja a Beira de cima.
Até que… acabaram as nuvens.
Haviam umas mais distantes mas pareciam inalcançáveis tipo já no Alentejo e o camandro mas como estava alto deixei-me ir indo em direcção ao rio com cuidado que naquela zona os buracos são grandes mas surpresa surpresa o dia estava a montar-se comigo a andar e o caminho que estava a seguir era o exactamente certo. Engonhando mais um bocadinho ou menos a coisa ia-se montando comigo a passar, era a sensação que dava.
Pelo caminho ia sempre falando ao Miguel a dizer por onde andava, o que era muito bonito até onde conhecia a zona quando passei a não conhecer e a confundir Vila Velha de Rodão com Santiago de Alcântara é que a porca torceu o rabo mas o grande Miguel ficou um bocadinho atrás para perceber onde é que aquilo ia dar e tudo se resolveu.
Nesta altura já andava com furores urinários desde a térmica chata de Santiago de Alcântara, já em final de dia que a coisa se estava a complicar bastante. O voo deu até São Vicente de Alcântara onde cheguei alto numa restituição fantástica e eu à rasca mas mesmo à rasca.
Saquei do camel bag esvaziei-o e ui ca bom…
Quando acabei já tinha vontade de voar mais mas era o por do sol e Albuquerque ainda era longe. Tinha apanhado a ultima térmica às oito… um dia fantástico.
Mas acabei por ficar por ali a tirar fotos e a fazer filmes até aterrar sem vento num campo fantástico já sem sol. A mercury portou-se lindamente num dia em que andei com um bocadinho de acelerador para compensar a falta de vento.
Resultado: 124 km.
Uma hora depois lá apareceu o Miguel mais o Nélio e o outro Miguel jantarada e casa.
No dia seguinte, Jul 15… era tudo parecido, tecto alto e o camandro mas com uns belos 10 nós de NE em altitude.
Nunca sai tão rápido da serra porque o dia estava mesmo já a funcionar e não foi preciso as cenas do costume de ficar à espera e o camandro, foi descolar subir e bazar.
Chegando à Covilhã, psicológico ou não é um desatino chegar à Gardunha, tinha o dia montado mas para lá da Gardunha e no planalto da serra, no intervalo népia mas estava a caminho.
Repetiu-se a cena do dia anterior subir bem na Covilhã e ala azul fora à procura de subida que me leve à Gardunha. Ia mais pela direita seguindo o caminho aconselhado pelo Vitor, e descoberto pelo Zé do Folgosinho mas a meio e sempre a descer à minha esquerda vi um monte de pó a subir e mandei-me para lá, demorei a chegar e quando cheguei aquilo deve ter sido um pequeno peido da mãe naturesa e por ali já não havia nada de jeito.
Mais à frente encontrei um zero onde me agarrei até aparecer cenas melhores. Passado um bocadito lá deu para subir e chegar por cima da Gardunha onde apanhei o canhão do dia.
Junto à nuvem andava-se uns belos 70 à hora por ali a fora agora com nuvens com fartura, optei seguir pela direita da a23 por cima do rio Zêzere penso.
Cheguei rapidinho às portas do Rodão.Falhei u
ns ciclos pelo caminho mas como o tecto era tão alto só era chato porque quando apanhava a térmica a seguir tinha de lá ficar búe tempo para recuperar da asneira. Mas quando acertava cagava em enrolar e punha-me a andar e a subir. Só enrolava quando apanhava núcleos fixes.
O frio era brutal no tecto e junto à nuvem. O arnês canoa é porreirito mas mesmo assim sofro com o frio.
Nas portas do Rodão encontrei na térmica um abutre que foi comigo uns 50km a seguir, sempre que enrolava o gajo aparecia até que se sentiu tão em casa que se chegou a uns dois metros de mim, tive de lhe lembrar que a distância é importante e a coisa deu-se.
Devia começar a levar comida para dar aos abutres soube que andam esfomeados no telejornal por causa das leis que proíbem o abandono de animais mortos.
A partir dai foi o rali das aldeias sempre de seguida Nisa, Alpalhão, Crato, todas as aldeias que na altura não sabia o nome e ia tentando explicar ao Miguel.
O Victor e o resto do pessoal vinham uns bons 40km atrás por terem saído mais tarde. Segui sempre uma linha afastada e à frente da serra de são Mamede porque por lá por trás, terras de Espanha, haviam umas nuvens desenvolvidas quase ao disparate. Sempre com nuvem mais dispersa agora… siga para sul com um bom ritmo sempre à espera de encontrar Évora mas quando estava a uns 20km com umas nuvens já muito desenvolvidas à esquerda bato em cheio na brisa.
Mas pareceu tipo que bati na parece, lá orientei a coisa a ver onde é que dava para aterrar sem estragos e perto duma aldeola e saiu a Aldeia de Vale do Pereira na herdade dos Bocareus a andar para trás.
Resultado: 188 km.
Abracitos Lacerda
por ClOudYo e Nuno Virgílio
PWC Castejón de Sos - 4ª mangaDepois do festival de reservanços de ontem (6 no total), a pior surpresa estava reservada para hoje: pela manhã ainda havia um piloto que não tinha reportado.. bad feelings..
Ainda assim montaram uma manga a fugir da montanha pois previa-se desenvolvimentos pela tarde (CBs), esta malta não se contenta com pouco e então, chaga-lhe massa: 84km com a fugir para o plano, com uma perna bastante longa contra vento, a passar pelo vale que escoa do Turbon, foi um ataque em 2 ciclos pois à 1ª tentativa ficámos baixo, a cair que nem calhaus e sem progredir.
A malta lá se foi safando como podia, eu e o Cláudio subimos com um grupo fixe, cloudbase e siga, quando finalmente conseguimos passar no escoamento, cancelaram a manga. Houve bastante "discussão de café" sobre se teria sido acertada a decisão ou nem por isso, mas a verdade é que não estava para meninos, tal como ontem.
Mais tarde viémos a saber que o helicóptero de buscas localizou o Russo que estava desaparecido. Tarde de mais.... Aparentemente alguém reportou que o viu no golo e não se preocuparam mais até hj de manhã ele não estar na pensão. Não se sabe o que sucedeu e ninguém viu, nem ele comunicou nada.
Nuno
PWC Castejón de Sos - 3ª manga
Allö maltaaaa!!
hj mais um mangalho de 95 kilos com mais de metade da prova a ser bem dificil.
Uma perna contravento da 4ª pra 5ª baliza a criar muitas dificuldades a toda a gente.
Houve 6 reservas incluindo um por colisão entre 2 pilotos...
Eu andei bem baixinho a 20kmh e sozinho o que me estava a deixar ligeiramente preocupado, principalmente depois da tentativa de acelerar k acabou num engravatanço k mais uma vez só saiu com uma perda assimetrica...finalmente consegui subir e juntar-me à molhada num sotavento que serviu de sala de reunião da manada.
Aqui safei-me mais rápido que o mano e acabei por seguir com um bom grupo (Simmon Issenhut, Jeremie qq coisa, urban valic e mais 1 tresmalhado numa up..).
não foi preciso arriscar muito pk já havia pilotos baixos à n
ossa frente a darem uma ideia de como o ar se movimentava e facilmente ganhámos altura pro ataque final ao golo.
pata a fundo, ainda comi o jeremie (k vai estar no europeu) mas o urban e o simmon dão-lhe bem (e além disso voam de icepeak eheheheh) devo ter acabado nos 15-20 primeiros e o mano nos 40... muita gente no golo de novo, e mais uma vez manga ganha plo cota k ganhou a 1ª manga... levei 12 minutos do 1º, e dei 15 minutos ao mano... devo subir mais umas posições.
esta prova ta renhidissima! hj de manhã estava em 58º a 300pontos do 1º!!!!
rhaztaaa
ClOudYo
PWC Castejón de Sos - 2ª manga
Ahhh pjé!!
Este spot é mm brutal.
Só xgámos indagora (23:50h) demorou mais a viagem de carro que o voo todo...
Foram 140 kilos sempre a dar-lhe. Havia umas idas e voltas na zona do take-off e depois "distance to goal: 108km" 8) Os primeiros 75 foi sempre de crista em crista, na nuvem, depois veio uma passagem mais tricky, tivemos de atravessar um vale bastante largo com o vento a escorrer e logo depois um colo mt alto, a malta toda a mandar-se pó sotavento pa subir, a agarrar o txã. Esta foi a parte mais hardcore, proibido olhar pa baixo: tiger land sem aterragem alguma.
Enfim, lá passámos e mudámos ligeiramente de direcção, por outro vale afora, desta vez sem conseguir subir tanto, com menos nuvem e mais vento, foi onde perdemos o grupo da frente e nos atrasámos. No final, a cerca de 7km, tinhamos 8,5 de glide to goal, e 60km/h (vento de costas) o que parecia fácil acabou por não ser tão simples, e o Cláudio acabou por ficar curto, 200m antes da linha (embora conte o golo, pq têm akele sistema dos 1000m para o tempo, passar a linha pa validar) Impressionante o andamento e o nível da prova, xgaram cerca de 80 pilotos ao fim, apesar da dureza de algumas passagens (por falar nisso, nova técnica comprovada: pa sacar um engravatanço, é meter um spin/perda assimétrica e siga.
Mas atenção, não tentem isto no vosso quintal, a não ser em caso de necessidade, ya?)
Entretanto devem sair results.
Amanhã deve ser outro mangalho mas desta vez uma triangulação ou ida e volta, pa aliviar a coça da viagem de carro do golo.
HAsta
Nuno e ClOud Yo
PWC Castejón de Sos - 1ª manga
A 1ª manga realizou-se hoje, com descolagem tardia devido à muita humidade proveniente da chuva dos dias anteriores, a condicionar a base das nuvens à altitude da descolagem (2400m).
Voámos um circuito de cerca de 40km, em cerca de 1h:05m, com chegada massiva no final, de praticamente todos os pilotos, e os lugares da frente a serem discutidos ao segundo. Em cerca de 2minutos devem ter chegado 50 gajos...
A manga não começou da melhor forma para nós, eu mais baixo o Nuno a meio do pelotão, na vinda eu era mesmo o piloto mais baixo de todos, mas fui tb o 1º a apanhar a térmica o k me permitiu ganhar algum tempo e rapidamente chegar à nuvem.
O Nuno voltou a atrasar-se aqui um poukinho. Na baliza seguinte era uma questão de escolher uma boa linha junto à nuvem, recuperámos ambos lugares e na térmica seguinte foi um vê se te avias. Eu cheguei rápido à nuvem e decidi arriscar tudo ao partir na frente pra ante-penultima baliza.
Cheguei + baixo k todos e tive de voltar a tomar a decisão.
Arrisquei um sotavento k me levou a perder um pouco de tempo a subir.
Quem veio atrás de mim marrecou, e o resto da molhad
a seguiu um caminho completamente diferente indo por um venturi e subindo rapidamente.
A partir desta penultima baliza foi o ataque final, Nunão com o grupo da frente a meter o 2º degrau ao serviço picanço da ultima baliza e upa 3º degrau metido nas unhas dos pés pa dar + um cagagésimo\h :D Eu devo terchegado nos 70-80, Nunão nos 20 1ºs....
Entretanto devem sair os resultados, vamos dando informações.
Os próximos dias prometem.rhaztaaa
ClOudyo
Castejón dia 3 Liga Espanhola + PWC
Ontem foi a última manga da Liga Espanhola, com muita gente a voar, na competição, e mts a treinar para a Taça do Mundo. 68kilos, com groundstart (!) umas balizas ali perto da descolagem e depois a tirada final de 45km para o golo, ao longo das cristas.
O cenário é brutal, vários picos de 3000m, com mta neve, vales verdejantes e algumas passagens mais hardcore, sem aterragem aparente. A verdade é que o sítio funciona mt bem, e mesmo na sombra da nuvem dá pa subir, se se atacar os spots correctos. Eu e o Cláudio começámos bem, embora tenhamos descolado uns minutos depois do start mas apanhámos a malta nas 1ªs balizas e na penúltima subimos bastante no vale, numa nuvem isolada. Aqui optámos por seguir directo na direcção do golo a atacar uma crista bem á frente enquanto que a maior parte do pelotão voltou para a encosta, seguindo mais baixo, mas bem rápido.
O Cláudio foi totalmente pelo vale, nos barlaventos da nuvem e eu segui mais coiso. A minha decisão não foi a mais acertada e acabei por perder algum tempo. Fikei sozinho numa parede, a lamber o calhau, até conseguir subir o suficiente para atravessar um
vale sem aterragens.
lá segui, mas mt atrasado, embora tenha conseguido impôr um andamento fixe a recuperar lugares, juntei-me ao Cláudio e mais uns quantos na última parede que tínhamos de transpôr pa xgar ao golo no vale, com vento de cauda. aqui foi só subir 50 metrinhos acima da crista e pata a fundo.
o Cláudio atrasou-se um pouco pq embora tenha xgado antes á parede, estava mais baixo com tudo à sombra e demorou mais a ganhar os tais 50 metrinhos...
resultado, cerca de 25 no golo, eu em 5º, Cláudio em 14º. Hoje, 1º dia da Taça do Mundo, com a meteo a ficar feia, cancelaram a manga. Tava um grizo dakeles na descolagem (aos 2400m!) Como a previsão era pa piorar e inclusivamente chover, viémos de coche para baixo, enquanto mais de 100 pilots descolavam para o voozinho higiénico.
Cedo deu pa ver que a nossa decisão de não voar foi a mai
s correcta, a chuva chegou rápido e o vento canalizou no vale. Tudo de orelhas sem descer nem andar pa frente e levar com chuvinha em cima... Vimos alguns a tentar aterrar na encosta para evitar a ventania no vale.
Infelizmente houve um acidente que ainda não sabemos bem da gravidade, mas aparentemente foi um espeta na encosta, numa zona íngreme e de difícil acesso.
Fizemos o apoio possível com o rádio entre o piloto que aterrou para socorrer, e a organização - já que estes não estavam alerta e nem sequer tinham os rádios na freq. de emergência... incrível.. organização a falhar logo no 1ºdia.
A ver como corre a partir daqui, vai tar mau mais um ou dois dias, depois parece bastante bom. Hasta!
Nunão e ClOudyozÃo :D
Resultados PWC Castejón 2008
por Paulo Reis
Após a descolagem de Castelo de Vide foi difícil subir até aos 2500m antes de sair do vale. Dirigi-me para a encosta de Porto da Espada em seguida bastante alto.
O vale de Porto da Espada não funcionava e estive à espera de conseguir sair do buraco durante algum tempo e quando estava pronto para deitar a "toalha ao chão" e ir aterrar, apanho um "Bip" fraco e decidi ficar ali à espera que aquilo se tornasse numa térmica e lá fui subindo que nem um caracol no meio duma auto-estrada. Aquilo era mais mocada seca, do que térmica!
Lá consegui sair dali e decidi ir para trás e forçar contra-vento (20 kms/h na tromba) para tentar seguir a estrada e o plano que tinha combinado com o pessoal que foi comigo.
Nessa altura estava à esquerda da Cordilheira que segue para Cáceres ("no man´s land") e se continuasse naquela rota, a deriva levar-me-ia para uma zona de pequenas montanhas, aterragens manhosas e muito poucas estradas. Voltei para trás a fazer serrotes depois de decidir que não ia (ser Anarca :-)) e seguir em direcção a Cáceres, ao contrário de todos os outros pilotos que partiram para distância.
Estava numa zona com poucas estradas, onde teria de caminhar algumas dezenas de kms a pé se tivesse de aterrar por ali.
Correndo o risco de ficar pelo caminho, decidi voltar a fazer serrotes até um local onde pudesse seguir uma estrada alcatroada. Antes de tomar a decisão de voltar para trás, falei com a Sílvia e Eusébio pelo rádio que me disseram que todos os pilotos tinham seguido muito mais para sul e eu conseguia avistar duas cidades grandes nessa direcção.
Fui fazendo serrotes até conseguir ficar alinhado com a nova rota (sudeste) que decidi seguir pois parecia-me a mais certeira para ir na direcção do restante pessoal. Com esta brincadeira toda, perdi duas horas antes de começar a cobrir "terreno a séria".
Logo que consegui começar a ir na rota que pretendia, foi sempre a facturar quilómetros, pois existia térmica com fartura por todo o lado e as aterragens
deixaram de ser uma preocupação.
Apenas fui gerindo a altura que tinha e não queria baixar muito, pois acima dos 1800 havia umas confluências jeitosas e a térmica ficava mais consistente. Abaixo dos 1500m tornava-se trabalhoso voltar a subir.
Foi apenas um voo de gestão onde apenas usei o acelerador no inicio para voar contra-vento e tentar fazer a ligação com a estrada que seguia para Cáceres. O voo acabou por ser bastante tranquilo e longo, algo que eu não julguei possível depois das primeiras 2 horas de voo.
Durante o voo ainda houve uma altura de "compasso de espera" pois fui apanhado por uma camada de cirros bastante espessa que fez com que as térmicas escasseassem por um curto período de tempo. O engraçado foi que quando saí dessa situação, mal apanhei uma zona de sol sem cirros, aquilo começou a soltar térmicas com fartura e consegui ir a boiar durante bastantes Kms a aproveitar uma zona de confluência estranha.
Voei 5 horas até esgotar as térmicas todas que fui atropelando e estava com energia para voar até ao anoitecer, num dia estranho onde se descolou tarde (até deu para almoçar de faca e garfo), onde enjoei (quase "gromitei") na viagem de ida e não me apetecia voar, onde estive prestes a aterrar no vale de Porto da Espada que estava sem bombar nada e parecia uma "panela de pressão estragada"!
Fui salvo por uma térmica fraca e turbulenta que me levou até à fronteira atrás e se tornou consistente à medida que subia e derivava para trás. Fiquei com a sensação de que se tivesse seguido a rota de Cáceres, teria conseguido cobrir muitos mais Kms, pois já conheço essa rota de frente para trás e de trás para a frente e a deriva era muito mais forte nessa direcção.
No final, adorei ter conseguido ir numa direcção que não conhecia e que me pareceu br
utalmente interessante para voos futuros. O terreno é plano, consegui identificar alguns gatilhos de térmicas interessantes, existem muitas estradas para aquele lado e as recolhas acabam por ser muito mais simples nessa direcção, pois voa- se perto da Auto-estrada E-90.
Ao aterrar em Mérida (às 20.30h) e após ter atendido 3 telefonemas em voo antes de aterrar e durante o planeio final, soube que o Saiote também tinha aterrado por lá e que tinha chegado 1.30h antes de mim.
Juntei-me a ele, depois de 5 kms a "alombar" com a asa às costas, pois aterrei no lado Este da Cidade e ele estava no lado Oeste e a "mamar survias" que nem um bêbado na Plaza de Espanha local. Foi a primeira vez que o vi alcoolicamente satisfeito, a falar pelos cotovelos e a rir-se descontroladamente. Afinal era o seu primeiro voo de 3 digitos :-)
Parabéns Saiote Anarca!!!!!!!!!
Bons voos e divirtam-se a voar,
Paulo Reis
Vídeo do voo
Tracklog na Liga XC Portugal
P.S: A parte chata foi ter sabido mais tarde, que muitos pilotos não conseguiram sequer sair de Castelo de Vide a voar. Continuem a insistir, pois o local não é fácil, mas vale a pena!
por Nuno Virgílio

2ª Manga
yaaa, malta a curtir é o q interessa!!!
hj alto dia!
70kilos, manga mais para o plano, no final a voltar ás cristas e a acabar na margem do lago, relvinha com a Corona gelada á espera ;)
novamente porradinha qb no inicio ( um dos Valic andou aos papeis, teve de meter 4 fullstalll pa desengravatar o bicho, ainda assim xgaram os dois na frente, cabrones) mais sombra no final, td de
catalogo o spot é provavelmente o mlhor do mundo pa voar nesta altura do ano. no entanto tds os dias ha reservas.. a malta q se distrai no acelerador ou a olhar pó lado vai descascar pinheiros...
o final foi alucinante, pata a fundo a dar a abada aos francius e aos camones q iam na minha frente.
devo ter xgado nos 10 primeiros. o PNunes veio na molhada do meio entretanto devem sair classif.
hasta!!
3a manga
Como ontem foi "mt fácil" desenharam um mangalho de 93km. condicao mais mexida que nos dias anteriores, na espe
ra pelo start nao havia a nuvem do costume e subia-se menos, mas com mais
porradinha.
No ataque ao start e 1a baliza tivemos duas opcoes diferentes, o PNunes fez na frente, eu fikei a engonhar mais e fiz a transicao directa para a baliza, mt mais alto, perco pontos de lideranca, mas assumo a mesma, pois saio na frente com o Rossel, Blondeau e um dos Valic, foi assim até á 3a baliza onde fikei baixo e perdi algum tempo, fomos alcancados pe
lo 2o grupo, cerca de 20 pilotos. O Rossel
tava alto mas saiu sozinho e acho q foi pro chao pq nunca mais o vi. a partir daki, novamenmte na "mesa" com umas balizas manhosas e pouca altura para o chao onde perdi mt tempo, apesar de finalmente surgirem os primeiros farrapos. Consegui recuperar na transicao para o golo, a cerca de 30km aos 3600 precisava de um glide de +99... - altitude do golo 3300m!!!
esta parte foi mt rapida com a confluencia montada, e marcada por cumulos, deu pa subir a direito nalguns deles, termica de +7 integrada e assim xgar novamente ao grupo da frente.
a parte final, foi atacar as paredes, muito ao estilo dos Alpes, e transicao final para o golo quase a 100km/h!! houve varios pilotos a aterrar de marcha-atrás... esta foi a parte mais complicada do voo mas felizmente nao houve nada de grave. a falta de oxigenio deu direito a dores de cabeca e cansaco bastante grande so de carregar a asa para o carro da recolha.
Cheguei novamente nos 10 primeiros, o Paulo tb esteve bem e garantiu mais um golo num dia difícil.
Amanha ha mais voo de certeza.
hasta luego.

4ª Manga
hj foi duro.. o start foi novamente mt bom ,mais alto q todos e a regressar rapidamente ao GSpot... Ja percebi pq chamam "Crazy Thermal" á termica de servico no El Peñon.. ao pé desta a da Azinha nos dias "bons" é um passeio de pónei...
mesmo mt turbulento nalgumas zonas, de resto foi só manter o andamento e no final fazer como de costume, esticar o pernil ao maximo..
ta td mt renhido, ha 20 gajos q podem mudar ainda de posicoes e so no final é q q se decide td.
Tamos bem, embora nestas condicoes o estado de forma fisica conte tanto como o mental. Ha que treinar para o o proximo ano estarmos no ponto
Quem está: -Valics, ganham á vez, tao imparáveis, e com mákinas q n dao hipotese á concorrencia,
-Francius, a molhada toda do costume menos o Kortela, mas com uns putos novos a andar bem.
-Camónes, alguns a dar-lhe bem, conhecem o spot e andam com umas UP novas mt boas
-Checos (menos a Petra e o Brauner) o costume, mas andam a ficar pa trás.. ou tem o pé mais leve; ou a táctica da cervejinha antes de descolar n é tao boa como a dos noodles..
-Venezuelanos- ganharam por equipas e individual o Monarca (a prova na semana passada) ha um deles q nao conhecia mas q ta sempre na frente, ganhou na semana passada.
-Schváins (alemaes, pq n ha suicos) Maleki, Rossel e mais uns qts, o andamento do costume, mt rapidos sempre na frente.
-Polacos e Austriacos, os do costume das PWC, mais uns qts conhecidos,
os Mexicanos embora conhecendo o local n tao com andamento.
Os Romenos tao imparaveis no Mezcal, ja mandaram umas quantas garrafas abaixo...
o spot é o do Mundial, as condicoes são mt consistentes, com confluência tds os dias, até agora vento fraco, sempre com nuvem (na zona de confluencia, q varia de dia para dia) ao inicio émexidinho
qb (tds os dias ha reservancos...) e a térmica é de esticao com vario nucleos, depois no plano mais classica, mas na mesma forte.
O chao é mt alto o q faz com que por um lado se tenha de tomar decisoes pela certa ou pode nao haver 2a tentativa, por outro, a pressao sendo mais baixa torna o ar mt instavel, sobe-se bem mesmo do chao, mta arborizado, com campos grandes de cultivo, o contraste n falha, é só ir lá e subir. da pa mta tactica, embora tb de pa se andar mt rapido, consoante se a prova tem mais apoio nas cristas ou mais pelo plano.
A organizacao tá boa.
Tamos numa casinha maijómenos, com as rotinas bem delineadas e a preparar bem as cenas. yoga de manha pa activar, noodles na descolagem, hidratacao qt baste e cuidado com a água e as comidas esquisitas (o PN ja tá a UltraLevur...)
hasta luego!!
5ª Manga
bateu-se novamente o record de maior distancia realizada em competicao neste local. 101km!
alta corrida, com zonas onde se andava mt rapido, e outras onde foi preciso aguentar os cavalos e meter umas abaixo pra n ir pro chao, depois novamente a confluencia a funcionar e a chupa da nuvem a dar uma ajuda pra andar a fundo sem necessidade de enrolar.
O dia parecia mt semelhante a ontem, com uma inversao chata e estabilidade mas acabou por revelar-se bastante diferente para melhor, com nuvem maravilha a surgir um pouco por todo o lado e no final a marcar a famosa confluencia da zona. Desta vez a parte inicial do voo nao correu mt bem, e tive de trabalhar bastante para apanhar o grupo da frente, depois da 2a baliza. As linhas de ascendente aki sao fundamentais e percebendo onde se formam é possivel andar realmente rapido sem perder altura,
Ate a terceira baliza um grupo enorme andou sempre mais ou menos coeso, a partir daki e principalmente no regresso ao El Penon, dividiu-se bastante, sendo
esta zona a mais dificil de superar na passagem para o plateau por tras da descolagem. bastante dificil e axo q foi por esta zona q o Paulo aterrou. Uma vez conseguido foi so surfar as nuvens da confluencia, sempre a carregar bem no pedal para apanhar os fugitivos.
Nesta parte foi fundamental algumas contra-derivas de forma a sacar a chupa da nuvem na ida e volta ás balizas q tavam praticamente alinhadas com a confluencia. O glide final foi a fundo e deixei uns francius pa trás embora n conseguisse apanhar o Urban e o Ronny q arrancaram primeiro. Devo passar pra 2o na prova pq o Aljaz n xgou e o Caron atrasou-se mt. O italiano q tava proximo tb n o vi, resta o Ronny q deve tar coladinho.
Amanha é a negra, seja qual for o resultado ja valeu a pena.
yoz!!
Hasta luego!!!
6ª Manga
6a e ultima manga, 56km, e aterragem na praia do lago de Valle de Bravo, com mta assistencia e mta gente no golo mt dificil, mt rapido e mt renhida a corrida
! varios tipos de andamento pois o zigzag das balizas punha-nos dentro e fora da linha de confluencia e das nuvens, qd dava era a fundo nas linhas de ascendente, depois ao sair para fazer as balizas, mt engonhanco para subir novamente.
Numa chegada á termica tive um assimetrico aparentemente normal mas q engravatou e depois foi uma sequencia q felizmente n acabou mal..
rotacao, tentei travar o lado oposto para tirar a gravata mas spinou e tive de meter perda, a saida n foi boa e andei a ver o extradorso da asa e os pinheiros la em baixo ao mesmo tempo... outra perda e finalmente o bicho acalmou, logo depois entro num +5 q me pos na nuvem e acabei por nao perder mt tempo para o grupo da frente. no ataque ao golo tinhamos de cruzar o lago e foi a fundo os 10km
finais, cheguei na molhada mas com algum atraso para o Aljaz, o Ronny n o vi, por isso penso q ficou para trás. a ver se dá para manter o lugar no pódio
Conclusão
Já cá estamos, depois de 20h de viagem... muito cansativas, mal dormidas e a culminar uma semana de voos longos e durinhos.
O jet-lag também não ajuda, são 6 horas de diferença e todos os dias acabávamos por acordar ás 4-5 da manhã. Outro detalhe é a altitude.
Descolamos a 2200m, os tectos rondavam os 3400-3700 e chegámos a ter um golo aos 3300, os níveis de oxigénio fazem mossa, e houve mesmo um dia em que andei com dores de cabeça e cansaço extremos, depois de 4h de voo, e ter de carregar com a asa ás costas por ... 50m!
Em 6 dias voámos mais de 25h, em boas condições, sempre com nuvem, mas por vezes durinhas.
A espera pelo start era sempre na zona do El-Penon, conhecida pela "Crazy-Thermal", não dava mesmo para perceber bem como era, nem donde vinha, penso que era a confluencia de várias por cima do plateau, com nucleos diferentes e muitos cizalhamentos (numa volta apanhava-se desde +7 a -7...) conclusão, a térmica da Azinha ao pé desta é um passeio de pónei.. Depois, mais alto a coisa acalmava e tornava-se mais agradável.
O terreno é muito variado e o tipo de voo mais ou menos ao nosso estilo, com relevos baixos e alguma planície, intercalado com zonas muito arborizadas e mais montanhosas, chegando depois a ser quase estilo Alpino, na direcção do vulcão.
A organização esteve muito bem, com os transportes a funcionar bem, toda a logística também sem grandes falhas, equipa de resgate sempre pronta (todos os dias tinham acção... pilotos nas árvores ou em zonas remotas e de difícil acesso), e no secretariado havia bastante apoio aos pilotos, desde computadores com net, restaurante com os típicos pratos mexicanos até massagens para recuperar da coça diária..
Pelas condições muito consistentes e pela infinidade de opções parara desenhar mangas vai ser sem dúvida um local excelente parara o Mundial, a confluência que se monta diariamente no planalto é uma auto-estrada autêntica e a conjugação com as idas ás balizas mais distantes obriga a adoptar várias tácticas ao longo da corrida, com alturas para acelerar e outras para voar mais conservador.
Ficámos bem instalados, e as rotinas que estabelecemos funcionaram bem (yoga para activar de manhã, cházinho, energéticos e camel-back para hidratação, noodles para comer antes de descolar, baterias carregadas diariamente..).
As expectativas que tinha da competição não eram muito altas mas claro que lá no fundo queria fazer uma boa prestação, estudei os adversários antes de ir e achei que um lugar no top 20 era razoável, no top 10 seria muito bom. Ao longo da semana os níveis de confiança foram-se consolidando e comecei a achar que algo mais ambicioso seria atingível, pelo que me foquei em continuar no meu estilo e de vez em quando fazer uma "jogada daquelas".
Resultou bem, o feed-back que fomos tendo também ajuda a manter o astral em altas, por isso agradeço a todos as mensagens de encorajamento.
Só se evolui a voar com pilotos mais experientes, pelo que esta prova foi um grande passo em frente, reconheço que a este nível se anda perto dos limites e a prova disso foi na última manga onde estive quase a ter de sacar do reserva. O meu conselho a todos é que não tenham pressas com evoluções, andem com material em que se sintam bem e confiantes, e acima de tudo conheçam os vossos limites (tivémos o exemplo de um piloto venezuelano, num dos dias em que estava mais porradinha resolveu não voar… Teve a humildade suficiente parara assumir que aquilo era demais para ele. Houve vários reservas nesse dia..
Só me resta agradecer uma vez mais o apoio de todos.
Até breve, encontramos-nos numa nuvem qualquer por aí ;)
hasta luego!!
Nvirgílio
Fotos: Algumas fotos de Silvio Zugarini
por Gonçalo Velez
Adoro participar no XCeará e espero conseguir ser um reincidente em cada ano!Nesta prova voa-se em liberdade, o quanto se quer e para onde se quer, sem regras, sem limitações. Deve-se respeitar um eixo e voar-se em distância o mais longe que consigamos. Esse eixo deve ser preferencialmente a rota do vento que nos impele à sua velocidade.
Este ano os horários de descolagem adiantaram. Tem-se vindo a descobrir que é possível descolar tão cedo quanto as 7h e encontrar ascendente térmica!
Por isso, o pequeno almoço passou para as 6h30 e o primeiro transporte para a descolagem às 7h!
Quase todos os pilotos partiam muito cedo para a descolagem. Procurei isolar-me dessa ânsia pois o que procurava era realizar um bom voo e não julgar que podia estabelecer algum recorde!
Descolar às 8h ou mesmo às 8h30 significava encontrar condições muito fracas, um tecto baixo e enfrentar um risco grande de não se ultrapassarem 20 km.
Subir à rampa demasiado cedo, para descolar horas depois implicava um desgaste muito grande pois a espera ao vento é enervante. Assim, subia cerca das 7h30-8h pois não fazia tenção de descolar antes das 9h.
Não sei por quê, achei as descolagens este ano mais fáceis. Talvez por ter levado uma asa mais rápida (Tycoon, dhv 2-3) do que a que usei nos anos anteriores em Quixadá (Tattoo, dhv 2). Além da maior velocidade em voo, esta asa infla e sobe com maior rapidez.
Carrego-a com 2 kg acima do limite superior.
São vários factores que melhoram a segurança nestas condições agressivas de Quixadá.
Quixadá, 15.11.07
Descolei às 9h10; a rampa está a 487m de altitude. A essa hora o tecto ainda era baixo, 1200m, e a minha intenção era seguir uma táctica de prudência: enrolar toda a ascendente que encontrasse.Nestes ventos de 30-40 kmh de média, viajamos na deriva das térmicas que também se deslocam perto dessa velocidade.
Pouco depois de descolar fiquei baixo, km 15, e tive o sentimento de angústia do costume, de me sentir impotente para inverter um destino terrível, mas não desisti, claro. Esta era a zona da "marreca" geral.
Como já estava com algum treino naquelas condições, era o meu 6º voo em Quixadá este ano, fiz uma deriva na diagonal meio a contravento e, por sorte, entre dois montes pequenos que, provavelmente faziam acelerar o ar, soltou-se a térmica!
Consegui subir aos 1500m percorrendo vários quilómetros que me levaram para a planície de Madalena, deixando para trás os montes que envolvem Quixadá.
São os primeiros 60 km os mais críticos. A maioria dos pilotos aterra antes de Madalena por que o tecto ainda é baixo, as térmicas não são muito fortes e o relevo é um pouco incompreensível. No plano a oeste de Quixadá, voa-se frequentemente no “azul”.
No entanto, neste dia o céu estava bem populado de cúmulos.Depois desta térmica fiz uma boa transição mas os cúmulos que tinha visado tinham esgotado a energia. Naquela zona há vários lagos e lembrei-me de o Diogo dizer que os lagos libertam sempre térmica.
Sobrevoei um lago pequeno onde tinha aterrado há dias, pensando que seria muito azar voltar a aterrar ali.
Dirigi-me para sotavento do maior lago, onde já tinha subido noutras ocasiões, e sondei o espaço, nada. Estranho.
Vou perdendo altitude e desaperto a abertura da selette pois quero estar mais concentrado no voo. Deixo-me ir para sotavento sentindo ansiedade mas acreditando que não ficaria naquele local.
De repente, sinto-a! Formava um cúmulo, e interpretei que a térmica viajaria deitada perto do chão por cerca de 1 km e depois levantava.
Uff que alívio!
Os momentos mais memoráveis do voo de distância são estas recuperações inesperadas, sobretudo quando já se olha em redor para ver quais são as possibilidades de aterragem!
Este ano voei mais contido e mais ponderado, e apliquei pela primeira vez com sucesso a técnica de sondar o espaço.
Em voos anteriores o meu hábito quando perdia a térmica, era virar costas ao vento e “deixar-me ir que algo haveria de aparecer”.
Errado. É preferível redescobrir algo que existe (ou já existiu) do que partir para a incerteza. Neste caso, socorria-me dos instrumentos e do “esperto na cabeça” para tentar perceber que podia já estar a voar a sotavento da térmica, ou ao lado.
As térmicas sofriam muito com a deriva do vento e desenvolviam-se muito “deitadas”. Senti que dominava melhor os nervos, que estava um piloto mais maduro, e senti que sofria muito menos com aquela impaciência de “voar sem ver” e o stress que isso provoca.
Voamos num meio transparente, que dá alguns indícios para quem os consiga detectar, mas se estivermos numa fase da nossa progressão em que não sabemos o que fazer, isso é muito enervante! Vamos para o chão sem sabermos porquê, nem o que poderíamos ter feito para o evitar.
Esta térmica levou-me até Madalena, km 60, numa rota a sul por onde nunca tinha passado. Aqui havia uma extensão muito grande de jurema, o mato com espinhos, que me deixou preocupado.
Nesta fase perdi muita altitude pois não conseguia urinar através da minha algália. Já há algum tempo que me esforçava, mas sem resultado. A minha preocupação era: ou mijava ou aterrava, pois o meu limite são as 3h-3h30 de voo.
Decidi que tinha de voar! Tirei a luva, abri a selette, depois as calças, arranquei o tubo, esforcei-me e… “aqui vai disto, ó Evaristo!”
Nem vi o que aconteceu por causa do cockpit à frente, mas penso que mais de metade da urina me molhou as calças e o interior da selette.
Não fez mal, ganhara outro ânimo para voar!
Depois consegui outra térmica que me fez sobrevoar toda a serra de Monsenhor Tabosa e passar à vista dos locais onde já tinha aterrado duas vezes, uma delas dois dias antes. Só que desta vez passava alto e cedo, 15h.
Partilhei esta térmica com um urubu e girávamos observando-nos mutuamente, ambos com o pescoço dobrado para o lado. Respeitámo-nos sempre até ao instante em que decidi dar uma volta no sentido contrário e estraguei a nossa “relação”, levando-o a abandonar a térmica.
Em Tabosa, km 120, subi numa ascendente gerada por uma queimada e a térmica era suave, pouco rentável, mas segura.
Passei a serra de Tabosa pelo norte, por cima da estrada, e consegui nova térmica resultante doutra queimada que me levou aos 2800m.
A estrada no chão era uma longa recta para Nova Russas, e por cima tinha uma bela estrada de cúmulos.
Não sei porquê, este ano evitei entrar na nuvem… Voei bastante de acelerador sob as nuvens pois sugavam bastante, e também por ver ao longe o que pareciam congestus!
Passei o km 127 a pensar que tinha ultrapassado a minha melhor marca realizada este ano a partir de Castelo de Vide.
Foi neste troço, km 140, que sofri dois potentes frontais que me deixaram muito desconfortável, sobretudo por terem sido quase consecutivos. Estava na base do cúmulo e sentia-se uma turbulência muito agressiva e uma ascendente tipo sugadouro, algo preocupante.
Cometi o erro de abandonar a térmica para sotavento e de entrar em fortes descendentes.
A seguir a Nova Russas, km 160, tornei a ver-me a 300m do chão e a avaliar terrenos de aterragens. Mas nova térmica me salvou e levou-me para 2600m.
Adiante acontece algo de curioso: o chão sobe, dando origem a um planalto, e ficamos com um tecto mais estreito! Essa é a impressão que dá, mas o tecto também vai subindo.
Olho em redor e dou-me conta de que não vi uma única asa durante todo o voo! Que se passa? Que é feito “deles”? Como se fala sempre demasiado no rádio, voo com ele desligado por isso não tinha qualquer noção sobre quem poderia estar a voar perto aquela hora.
A organização pedia que informássemos a nossa posição sempre que aproximávamos uma baliza: número de piloto, altitude e distância da baliza. Enviava essa informação e desligava o rádio.
Esta informação é importante por razões de segurança óbvias, mas também para permitir à organização posicionar veículos de transporte.
Passo Poranga, km 215, bastante alto, consigo atingir 2900m e percorro 26 km em planeio a direito. Em baixo a estrada é uma longa recta de terra com mato para cada lado. Uma zona muito preocupante se tivesse que aterrar, embora a estrada fosse sempre a salvação.
Às 16h30, km 255, consigo subir no que julguei ser a última térmica, que me levou aos 2900m outra vez.
Faço um planeio de uns 20 km numa restituição deliciosa em que a taxa de queda é muito reduzida, e as cores do final de tarde são soberbas.
Concentrei-me a aproveitar ao máximo as modestas linhas de ascendente que fui sentindo. Às vezes desconcentrava-me a apreciar a paisagem e auto-criticava-me!
Cheguei a Pedro II eram 17h e reparo que estou no km 283.
Pergunto-me: e por que não os 300 km, hein?!
Passo a sul da cidade sobre uma colina e vejo adiante um urubu que enrolava térmica. Nem queria acreditar que ainda podia haver uma ascendente aquela hora!
Era fraca mas fez-me subir 700m. O urubu e eu girávamos sincronizados, eu desconfiado, tentava olhar para trás das costas para ver se ele não me traía. Depois subi mais do que ele e desistiu, foi procurar outra companhia.
Sabia que estava próximo o momento de aterrar e fazia contas ao terreno, e sobretudo tentava adivinhar qual era a estrada principal, ou seja, o eixo lógico dos transportes de recolha para não ficar muito distante de um local conveniente.
Do ar tudo parece perto e fácil, mas quando estamos aterrados arrependemo-nos de algumas opções de aterragem que fizemos, sobretudo quando o rádio não alcança alguém!
Contudo, neste momento só olhava para o conta quilómetros: queria passar os 300 km!
Voei por cima de uma estrada e esperei, tentando sempre sentir as melhores linhas de planeio.
Aproximava uma aldeia e vi 288 km.Lá em baixo jogavam futebol num campo grande. Em redor o terreno era coberto de arvoredo e raras clareiras.
Detectei um campo largo, bom para aterrar, e outro campo mais longe, menos bom, estreito e ladeado de árvores.
Vi 299 km e deixei-me ir… esperei.
Mal vi os 300 km dei meia volta e dirigi-me para esse campo largo.Uff, consegui.
Eram 17h30. Não tinha comido todo o dia e antes de dobrar a asa comi duas deliciosas maçãs e três mini-bananas que transportava comigo.O rádio não tinha alcance e o meu telefone não tinha rede! Pedi a um dos nativos para enviar um sms ao Chico com as minhas coordenadas.
Fez-se escuro rapidamente e saí do campo na companhia de aldeãos com uma lanterna acesa na testa.
Deram-me boleia de moto até uma mercearia no centro da aldeia onde comprei cerveja, pão e uma lata de sardinhas, pouco mais havia para comer.
Soube que estava em Mororó, município de Lagoa de São Francisco, estado do Piauí.Fecharam a mercearia às 20h e deitei-me a dormir no chão com uma bota a servir-me de almofada, o rádio ligado à cabeceira.
O carro da recolha apanhou-me eram 1h30 e cheguei ao hotel em Quixadá às 9h, atrasado para o pequeno almoço e para outro dia de voo!
Aqui está o track do voo que descrevo acima.Conclusão
Este XCeará resultou numa enorme surpresa para mim pois acabei por voar o triplo do que voei em 2006!
Em 8 dias disponíveis, voei 7, num total de 18.9h.Excluíndo o voo local de treino no primeiro sábado, voei 17.8h e 587 km de distância.
Isto equivale às médias por voo de 2h58 e de 98 km de distância.
Foi uma excelente semana!
Obrigado aos meus companheiros de viagem e de voo, Paulo Reis, Carlos Brasuka, Gil Navalho e João Brito pela amizade, e aos demais participantes, motoristas das recolhas, meninos de Juatama (os ajudas na descolagem) e pessoal da organização por participarem e organizarem esta prova tão especial.
O meu companheiro Paulo Reis fotografou e filmou:
Slideshow
Filmes:
Viagem para Quixadá e Voozinho
Briefing e Manga de Teste
Dias 1, 2 e 3
Dias 4 e 5
Dia 6 e Entrega de Prémios
Parabéns aos recordistas do Mundo, Marcelo Prieto “Cecéu”, Rafael Saladini “Sardinha” e Frank Brown pelos 461.8 km voados em 14.11.07, a véspera do dia do voo que relato acima.
por Gil Navalho
Viva
O Ceará continua a bombar e os voos terminam por sair!
Impressionante, voa-se todos os dias sem excepção.
É claro que o momento da descolagem é sempre emocionante e é preciso acreditar piamente na ordem para descolar dada pelo Expert local.
O Team Outsider ontem revelou a sua arma mais letal: Gonçalo Velez, conhecido nalguns locais por Gonçalo "Trepa-Tudo"!
O nosso artilheiro trabalhou como observador avançado e... 300kilos para o homem, em grande!
De resto tivemos o Brazuka, o Bruto e o Reis a defender posição, ficaram logo no início a mandar canhoadas para o pessoal que pretendia passar. Era só o que faltava, irem para distância, lenha nos gajos e venham para o chão.
Agora sobre o voo de ontem.
O início foi muito difícil (tecto a 1300m), mas isso já é habitual.
Até Madalena (km60) temos de voar em condições de sobrevivência total.
Transições muito curtas, tecto baixo e muito azul. No fundo é aguentar no ar, e esperar que o vento nos leve. Em Madalena o tecto já batia os 2000m.
A partir dai as coisas são "menos" dificeis. Começam a aparecer mais cumulos. No entanto o dia era algo anormal, a térmica era muito turbulenta, e quase impossível de centrar. Tive de me empenhar para a asa não andar a largar peças pelo caminho...
Em Monsenhor Tabosa (km120)o tecto já atingia os 2400m (o chão está pelos 200m). Os cumulos começavam a ficar mais apetitosos e surgiam as primeiras linhas de confluência, se bem que curtas.
A partir de Poranga as coisas melhoram significativamente, confluências mais definidas. No entanto era necessário decidir o alinhamento a seguir muitos quilometros antes, pois as descendentes são brutais, e o vento não permite andar a "passear" de um lado para o outro à procura da térmica (que inveja que eu tenho das Delta).
Depois de Poranga é que o Ceará mostrou "com quantos paus se faz uma canoa"!
Percorri muitos quilos de borla debaixo das confluências. É necessário ter o cuidado para não cair fora delas, e temos de saber escolher muito bem a faixa de altitude de trabalho. Ir junto à base implicava perder muito tempo, e tb estava freskote (tecto a 3000m). Por isso era andar ali a boiar entre os 2700 e os 2400.
O final de dia foi fabuloso. Foi a "cereja no topo do bolo". Depois de um dia em que andei horas a levar porrada da velha, um final de voo com termal suave e a poder apreciar a paisagem... Beleza!
O final do meu voo foi sobre uma zona de floresta com uma única estrada de terra. O cenário é bonito, o vermelho da terra a contrastar com o verde.
Aquela zona marca o início da Amazónia, com um floresta ainda baixa, mas numa clara mudança da paisagem relativamente ao Sertão, em que tudo é muito seco...
As aterragens, essas são escassas. Mesmo na estrada existem poucos locais, dado que as copas das árvores fecham a estrada e a essa hora não há vento ao nível do solo. E com a restituição é necessário muito espaço para por o estojo no chão. No final, 336 kilos em 8h30 de voo. O vento deu uma ajuda e consegui uma média bem melhor do que no voo anterior. Hoje não fui voar. As recolhas à brazileira a funcionar no seu melhor.
Cheguei ao hotel já depois das 7h, e já tinham saido os primeiros transportes para a descolagem. Mas também não faz mal, o vento esteve muito forte e atravessado. Descolaram muito poucos pilotos de parapente. O vento e o power da termal eram de tal forma que eles nem sequer conseguiam penetrar, esbarrando na parrede
da térmica e a irem direitinhos para o chão.
Um pilto brasileiro de parapente relatou que fez vários SIV´s seguidos numa encosta por trás da descolagem!
Ao que parece houve um acidente com uma Delta, fez tumbling e partiu. O gajo não conseguiu abrir o reserva, e terminou por cair em cima de umas árvores. Tanto quanto ouvi, ele magoou-se mas estava a caminhar, perdeu os instrumentos e por isso não consegue dar as coordenadas do local. Para ajudar à festa não há pilotos a voar hoje para indicar a posição desta delta, e devem estar uns 45º no solo; Acabei de saber através do Chico Santos que o Heli está a chegar agora ao local, e a viatura de assistência está próxima.
Por certo que regressarei ao Ceará para voar. Por isso vão pensando quem quererá vir e juntar-se ao Team Outsider para XC no seu melhor.
Na classificação provisória que afixaram estou em 1º lugar. Mas ainda não constam lá os descartes, pelo que deve vencer a prova o Thomas Brauner e o Navalho em segundo.
Navalho

por Rafael Saladini
Hoje completamos 31 dias no sertão nordestino e a cada dia que passa o recorde mundial parece mais distante.
Os ânimos já estão completamente abalados, a pressão de ter passado tanto tempo em busca de um objetivo já há muito tempo pesa em nossos ombros, e não resta mais muita motivação e nem muitos dias. A situação atual também não é das mais confortáveis, pois durante o XCeará muitos pilotos começaram a copiar nossa estratégia de decolar bem cedo e sobreviver durante a manhã, o que nos pressionou psicologicamente ainda mais.
Afinal não seria justo após tantas tentativas e tanto estudo do local, chegar um estra
ngeiro e quebrar a marca de 423 km. Seria um desastre.
O mais importante naquele momento era tentar abstrair toda a pressão e confiar em nossa própria capacidade.
O dia amanheceu azul prometendo condições perfeitas para bater o recorde. No entanto, durante os momentos iniciais do vôo, o cenário foi mudando radicalmente, com uma camada de stratus densa condensando acima dos primeiros cumulus do dia e sombreando a rota. Um desânimo inicial quase atrapalhou o dia que proporcionaria o primeiro vôo acima de 450km no Brasil.
Meu vício de abrir a cortina do quarto para checar a condição pela manhã não existe mais.
Prefiro não mais ter opinião sobre o dia antes de chegar a Monsenhor Tabosa voando. Mas logo na subida da rampa, já havia uma densa camada de humidade em médias camadas da atmosfera desanimando muito os pilotos.
Alguns pilotos até riram quando colocamos a vela em posição de decolagem, o cenário indicava um prego logo atrás da rampa em Custódio.
Havíamos combinado em voarmos juntos para acelerar a velocidade média até o fim do dia. A dúvida era saber se isso seria possível, afinal voar dez horas completamente juntos no mesmo ritmo seria extremamente difícil.
Decolamos as 7:20h completamente desacreditados pelos que nos observavam. Alguns outros pilotos corajosos decolaram no mesmo horário. Logo na saída o plano de voarmos juntos já não funcionou. Nos separamos na primeira térmica e acabei saindo da rampa em companhia de Francisco Ceará e André Modelo, enquanto Frank e Cecéu resolveram esperar mais alguns minutos.
Minha saída foi desastrosa, minha segunda térmica praticamente não existiu, eu acabei me separando de todo mundo e fui para uma altura crítica próximo a serra do padre (km 15).
Cheguei a 150 metros de altura embaixo de uma região completamente sombreada, eram quase 8:00h e minha situação não era nada confortável. Com muito custo consegui encontrar uma maneira de sobreviver e voltar para o vôo.
Cecéu e Frank saíram um pouco atrás também em situação complicada, cruzando uma extensa região húmida e muito sombreada. Conseguiram sobreviver se arrastando pelos monólitos daquele inicio de vôo. Enquanto isso, André e Ceará deslocavam-se por uma rota um pouco mais a direita e já enga
tavam numa condição muito bem formada, colocando uns bons 10 km a nossa frente.
Minha ansiedade era grande, mas ainda restavam mais de 9 horas de vôo. Quando avistei Frank e Cecéu juntos a cinco quilômetros de mim, pensei que poderíamos facilmente conectar em pouco tempo. Errado.
Como era muito cedo e os ciclos ainda estavam bem curtos, não consegui me manter no mesmo lugar e fui obrigado a continuar adiante sozinho até que eventualmente eles pudessem me alcançar para juntarmos o grupo.
Antes de Madalena chegamos a ficar bem próximos, mas como minha linha de térmicas estava funcionando bem melhor, acabei me adiantando ainda mais em relação a eles.
Frank e Cecéu escolheram uma linha complicada, que os manteve o tempo inteiro com a corda no pescoço até o platô de Monsenhor Tabosa.
O resumo desse inicio de vôo era um cenário complicado, com nuvens estratificadas em camadas médias da atmosfera filtrando muito o sol já fraco da manhã, o grupo desmantelado com Cecéu e Frank juntos não conseguindo se deslocar satisfatoriamente para me alcançar, eu totalmente sozinho à frente com um medo enorme de cair, André e Ceará com 10km de vantagem e a total certeza de que se sobrevivêssemos a manhã, facilmente chegaríamos nos 400kms.
Mas nós tínhamos um problema, uma dupla de pilotos extremamente competentes e capazes, voando juntos a nossa frente. Isso significava que estávamos atrasados. Minha ansiedade em conseguir me aproximar da dupla era tão grande quanto a minha ansiedade em conectar com Cecéu e Frank. Resolvi acima de tudo controlar minha ansiedade e mentalizar sobre a minha real situação. Correr sozinho não adiantaria nada e seria assumir um risco muito grande para a hora. E mesmo que conectasse com André e Ceará, pilotos antigos e experientes, acredito que sozinho não teria condições de influenciar nas decisões deles.
Minha ideia era atrasá-los ao máximo para dar tempo ao Cecéu e Frank de me pegarem. Optei por confiar na capacidade do nosso trio para pegá-los mais tarde. Decisão conservadora que talvez tenha sido importantíssima para ajudar o grupo. Assim que pulei para o platô de Monsenhor Tabosa, voando burocraticamente consegui dar tempo para que meus companheiros se juntassem a mim.
Fiquei enrolando numa bolha fraca para delinear a linha de perturbação para que eles tivessem mais segurança em pular mais rápido e mais baixo. Funcionou.
Estávamos no km 110 e finalmente conectamos o time. Um recorde mundial estava sendo construído naquele momento.
André e Ceará cruzaram a serra de Tabosa e rapidamente entravam na planície de Nova Russas com uma vantagem considerável. Nós nos arrastamos pelo platô em seu teto de 700m do chão. Logo no final do platô me desconectei brevemente, pois encontrei um miolo térmico excelente que me colocou 400m mais alto que os dois, e para tentar pressionar André resolvi me atirar, mesmo não estando na base da nuvem, em sua direção para tentar obrigá-lo a abandonar sua térmica para não me deixar alcançá-lo. A estratégia funcionou muito bem, André aproveitou que já se encontrava em boa altura, para abandonar sua térmica e me tirar a referência. Mesmo assim foi possível encontrar a mesma térmica e assim delinear mais uma para adiantar meus parceiros.
A idéia de voarmos juntos era excelente e só traria benefícios, caso ocorresse de fato. Um exemplo da difi
culdade de voar em grupo foi a própria dupla a nossa frente, pois Ceará e André se separaram logo na saída do platô, onde Ceará acabou arriscando mais do que deveria, ficando muito baixo e permitindo que nós o ultrapassássemos. Pressionado por ter sido ultrapassado, Ceará acabou tomando decisões precipitadas e confiou demais na condição.
Acabou caindo por volta de 11:00h perto de Nova Russas.
O trio seguia forte, e mesmo não coincidindo muito bem com os ciclos, conseguíamos nos deslocar com uma boa velocidade média para o recorde. André estava voando muito bem e com um timing de ciclos térmicos praticamente perfeito, enquanto nós, sempre 10km atrás,nos arrastávamos sem conseguir pegá-lo. Nosso ritmo foi razoável no trecho Nova Russas (km175) – Pedro II (km270).
Rastreávamos de forma eficiente e amistosa, o espírito de grupo que imaginamos em nossas conversas finalmente tomava cara, éramos um só organismo.
Uma atitude próximo a Pedro II-PI confirmou. Colocamo-nos numa situação complicada e sobre pressão.
Chegamos a Pedro II numa altura crítica para a hora, 500m do chão ás 14:20h, e estávamos presos a uma térmica extremamente fraca que nos tomaria muito tempo para subir, e tempo era uma coisa que não tínhamos, o relóg
io é sempre o maior inimigo de um recordista.
Afinal o objetivo do grupo não era o Xceará e muito menos acumular mais um vôo de 300km. Resolvi partir para a agressividade em prol do grupo. Avisei meus parceiros pelo rádio que arriscaria todas as minhas fichas numa nuvem logo após Pedro II.
A resposta foi sensacional: “Se um vai, tem que ir todo mundo. É recorde ou chão!!!”
Um açude grande logo após a cidade de Pedro II com uma nuvem enorme muito bem formada bem acima dele era nosso destino. Nossa bem desenvolvida análise de nuvens não poderia falhar naquele momento tão especial do vôo-livre brasileiro, com três pilotos do mesmo país na iminência de quebrar o recorde mundial juntos.
Eram quase 14h30minh e estávamos beirando os 300 km de vôo, ainda tínhamos mais 3 horas de vôo e pouco menos de 150km para o recorde. Nosso maior medo era entrarmos atrasados no ciclo daquela nuvem, um erro seria fatal naquela altura.
Cruzamos o açude e não batemos em nada. Na verdade erramos na navegação, e para a nossa sorte o erro ainda era contornável, pois usamos o chamado ângulo do desespero, quando não resta mais muita opção, o jeito é jogar 90 graus em relação ao vento para encontrar qualquer linha de perturbação que possa ajudar.
A teoria ajudou na prática. Jogamos para a direita, batemos numa linha ativa, que era a linha ativa da nuvem, e em meio a uma falhadeira, acabamos encontrando um miolo de uns 3m/s que melhorou bastante nossa situação. Rapidamente estávamos em uma altura confortável e suficiente para continuar nos deslocando.
Fizemos uma pequena transição até a nuvem seguinte, onde finalmente atingimos em cheio o ciclo, nos posicionando muito bem para o horário, 14:40h na base da nuvem a apenas 15 km de PiriPiri-PI (km
310).
Uma desconfiança de que o recorde de fato poderia ser batido começava a nos angustiar. Na transição para PiriPiri enxergamos André muito baixo tentando sobreviver um pouco antes da cidade. Ele de fato cometeu um erro fatal em ficar tão baixo por ali e acabou pousando. Apesar de ter a certeza de que mais cedo ou mais tarde o pegaríamos, um alívio tomou conta do grupo, afinal a partir de agora tudo só dependeria de nós.
O cenário a frente não era dos melhores. Apesar de sempre termos lidado com cirrus e adversidades naquela região final do vôo, aquele céu por um momento nos assustou, pois estava muito húmido e com nuvens estratificadas em camadas médias e baixas da atmosfera.
O deslocamento até Barras (km 375)foi muito bem estudado e sem grandes emoções, passamos a direita da cidade um pouco antes das 16:00h.
Ainda tínhamos 1h e 45m para o pôr-do-sol, que estava marcado para as 17:43h de acordo com o GPS. Para homologar um recorde devemos cumprir com as regras locais de aviação, e no Brasil aeronaves sem instrumentos adequados para navegação noturna, devem pousar antes do horário do pôr-do-sol.
A partir de Barras-PI tomamos decisões rápidas e estratégicas para nos posicionarmos bem naquelas horas finais.
O maior desafio foi conter a ansiedade para manter a velocidade média, que é sem dúvida o ponto mais importante para atingir o objetivo em tempo hábil. O maior problema de voar o dia inteiro é ser capaz de adaptar-se as horas do dia, ou seja, durante a manhã não é necessário ter pressa e assumir muitos riscos que podem facilmente te colocar no chão.
A partir das 11:00h a condição já começa a arredondar e já torna-se mais confiável, permitindo um deslocamento mais agressivo e constante, mas o problema principal é durante o final de tarde, quando o piloto já vem com um ritmo acelerado das horas mais fortes do dia e não percebe que chegou a hora de desacelerar o ritmo para não cair. Pilotos demasiado agressivos podem até ter a sorte ou encaixar-se perfe
itamente nos ciclos, mas acredito ser muito difícil não cometerem erro algum.
Comparo essa transição do meio para o final da tarde com a chegada de uma longa viagem, onde o condutor entra em área urbana num ritmo de rodovia, acima do limite de velocidade e como já está bem perto de casa (recorde) acaba relaxando e perde a concentração pelo cansaço. São nessas circunstâncias que acontecem grande parte dos acidentes. Portanto, assim como dirigindo, é sempre importante manter a concentração e o foco até o final, pois um pequeno erro pode custar caro. Aprendi isso durante dois grandes vôos que realizei em Quixadá, pois quando me aproximava do final deixava minhas emoções tomarem conta das minhas decisões, me atrapalhando a ponto de não me permitirem cumprir meu objetivo. Cai duas vezes a beira de transpor os 400 km por isso.
Em Barras-PI, tomamos talvez a decisão mais sábia do vôo inteiro, forçando quase 90 graus para a direita em direção a uma linha de perturbação que se encontrava acima de uma seqüência de fogueiras. A nuvem que estávamos de olho na verdade nem funcionou direito, mas fomos obrigados a subir bastante tempo em 1,5m/s até a
tingirmos uma altura segura para pularmos para a próxima queimada.
E assim foi, eram 16h30 quando cruzamos a barreira dos 400 kms, ainda restavam 1h e 15 m de vôo, estávamos juntos e só faltavam 23km para o recorde.
Uma euforia tomou conta do grupo e fui muito bem ciceroneado por Marcelo Prieto que nos deu as boas vindas pelo rádio ao seleto grupo de pilotos que passaram dos 400kms. Mas ainda faltava mais um movimento para ganharmos o jogo. Mais uma térmica.
Os planeios após a barreira dos 400 km foram tensos. Eu e Marcelo nos mantivemos frios e céticos até estarmos acima da marca dos 423 km, enquanto Frank já comemorava e já tinha certeza de que bateríamos a marca facilmente.
O “go to”do GPS era Miguel Alves-PI (km 455) desde o início do vôo e depois de tudo que passamos, estávamos a pouco mais de 40km da cidade e apenas a 10km do recorde mundial de distância livre. Era o momento de encontrarmos mais uma para garantir.
Alinham
os com uma seqüência de queimadas e chegamos a conclusão de que seria impossível não encontrarmos nada por ali.
Nosso instinto funcionou muito bem durante todo o vôo e não seria agora no final que seria diferente. Encontramos um miolo excelente para o horário que nos colocou de volta acima dos 2000m de altura.
Era hora de controlar friamente as emoções, pois o recorde mundial havia sido batido, porém nosso objetivo era Miguel Alves-PI e faltavam ainda 30km. Um dos highlights do vôo sem dúvida foi a chegada ao rio Parnaíba, divisa de estados entre Piauí e Maranhão.
Esse planeio foi emocionante. Como falamos desse momento durante tanto tempo, enfim nosso sonho se realizava, 445km de Quixadá e a gente realizando nosso último planeio em direção ao tão sonhado Rio Parnaíba.
Chegamos lá a 200 metros de altura acima de uma queimada onde encontramos bolhas bem formadas e constantes. Era definitivamente um momento de contemplação.
Enfim estávamos 100% realizados, após tantas tentativas, tanto comprometimento e dedicação. Durante o planeio até o rio, sem dúvida foi o primeiro momento durante todo aquele vôo que consegui relaxar, após 10h e 10m de pura atenção e adrenalina, a cabeça estava livre para pensar em outras coisas. Fiz uma retrospectiva de toda a minha trajetória no vôo livre e agradeci muito a todos os personagens que me ajudaram a estar ali.
Lembrei muito de André Fleury, que certamente estaria ali do nosso lado na parceria caso já estivesse em condições. Definitivamente aquele recorde mundial só estava sendo alcançado no sertão nordestino brasileiro, graças aos esforços de André Fleury e Marcelo Prieto, que durante muitos anos dedicaram seu tempo e conhecimento para desven
dar algumas peculiaridades da região. Foi uma quebra de paradigma, pois durante toda a história do vôo livre no sertão, nunca se pensou em decolar tão cedo.
A janela agora rompia a casa das dez horas voáveis. Com o grande diferencial de vento forte e condições meteorológicas perfeitas. Olhei para o Cecéu ainda em vôo do meu lado com profunda admiração, afinal eu fui abençoado de tê-lo como professor e sou abençoado de tê-lo como amigo. Sei que pra ele aquele momento era tão especial quanto pra mim. Não por simplesmente quebrar o tal famoso recorde mundial de distância livre em Parapente, mas por ser recompensado em grande estilo depois de tanta busca e perseverança.
Foram longos dias fora de casa, suportando muitas críticas, inveja e pressão. E pensar que nada disso foi em vão. O regime de quartel que sempre fizemos questão de impor para manter nossa disciplina, enfim rendia-nos bons frutos.
Subíamos a quase 2,0m/s constante acima do Rio Parnaíba em direção a base da nuvem, eram 17:25h e não tínhamos muito tempo para pousar.
De fato é contra meus princípios não cumprir com certas regras de segurança, entretanto após o pôr-do-sol ainda restam pelo menos quinze minutos de luz que permitem perfeitamente pousar em segurança. Se eu não estivesse voando nessas circunstâncias certamente eu aproveitaria cada segundo disponível de luz, porém decidimos abandonar nossa última térmica que nos levaria para os 500km para garantir a homologação do recorde. É justo.
A vegetação do Maranhão já é bem húmida e verde, com árvores e coqueiros enormes que limitam em muito as opções de pouso. Em nosso planeio final ficamos um pouco apreensivos, pois b
atíamos em bolhas fraquinhas que não nos permitiam perder altura, por ironia chegamos a fazer cálculos de quanto tempo demoraríamos a pousar se continuássemos naquela razão de planeio. De fato se continuássemos naquela linha de bolhas ultrapassaríamos a “deadline”, então fizemos orelhas e procuramos um linha ruim que nos colocasse no chão mais rapidamente.
Seguimos uma estrada de terra até uma pequena vila chamada Santana Velha, onde aterrizamos num pequeno campo de futebol.
Fomos muito bem recebidos e até um bom arroz e feijão foram servidos bem ao estilo da região. Os locais nunca haviam ouvido falar daquele pedaço de pano voador e por ali nunca havia passado nenhum tipo de aeronave parecida.
Perguntavam-nos se havíamos pulado de um avião, e quando explicamos que havíamos saído de Quixadá-CE, fizeram aquela cara de quem está ouvindo mentira. A melhor explicação nessas horas é sempre a mais rápida de se entender, portanto dizíamos que um vento muito forte havia nos levado para lá, em parte era uma grande verdade. Sem dúvida esportes como o vôo-livre parecem muito imprevisíveis, pois só conseguimos enxergar as cicatrizes deixadas pelos fluxos, mas nunca enxergamos os fluxos em si. Talvez por isso seja tão incompreendido por todos e encarado como um esporte tão perigoso.
“É muita coragem...” – a frase mais falada na vila. De fato para quem não pratica deve ser loucura.
Afinal passamos mais de dez horas pendurados naquelas linhas a milhares de metros do chão, tomando centenas de decisões, dentro de uma massa que mal enxergamos. Em Quixadá comparo o início do vôo a um rafting, onde a única opção é seguir a correnteza. Mas por mais que pareça uma loucura, existe muito estudo e conhecimento por trás. Seguimos o plano.
Decolamos no coração do Ceará, sobrevoamos todo o estado do Piauí e chegamos muito próximos a região amazônica no Maranhão. Cruzamos uma grande parte do sertão nordestino. Os três juntos. A quebra desse recorde não é simplesmente o rompimento de uma barreira numérica, mas também a prova de que o vôo-livre não necessariamente precisa ser um esporte individual e egocên
trico.
Nosso sonho de trabalhar em equipe funcionou. E a equipe não se resume apenas aos pilotos no ar, não podemos esquecer de nosso digníssimo resgate Dioclécio, o Dió, e da SOL Paragliders, que desenvolveu essas velas maravilhosas e nos apoiou muito na conquista.
Quando decidimos voar juntos, sabíamos das adversidades. Somos totalmente programados para competição, portanto nunca olhamos para o piloto ao lado como nosso companheiro, e sim como nosso adversário que devemos em algum momento dispensá-lo.
As vitórias são individuais e não existe espaço para mais de um piloto nos degraus do pódio.
Quando iniciamos nossa busca pelo recorde em Outubro, me peguei em diversos vôos competindo com meu companheiro Cecéu, quando na verdade deveria apenas ajudá-lo e ser ajudado. É sempre muito mais fácil para todos voar em grupo, mas o difícil é transformar esse grupo em um time. Frank em pouco tempo voando ao nosso lado, entendeu nossa filosofia e já fazia parte dela. Foi uma filosofia também iniciada por André Fleury e Marcelo Prieto, e estamos todos extremamente realizados por ter tido a oportunidade de colocá-la em prática de forma tão perfeita e harmônica, culminando em um Recorde Mundial de Distância Livre. A Expedição XCNordeste 2007 finalmente chega ao fim.
Foram 31 dias investidos em Quixadá, Ceará, Brasil. Três recordes importantes batidos, dois sul-americanos e um mundial de distância livre. Quatro vôos muito importantes (397 km, 414 km, 398 km e 461 km). Mais de 3.000km voados e mais de 8.000km rodados pelo nosso resgate. Sem dúvida um sucesso.
Tenho a certeza de que após anos investindo pesado nas Expedições XCNordeste, Ary Pradi deve estar muito satisfeito, afinal três pilotos da equipe
SOL, voando os novos Tracer 11, realizaram um feito inédito no parapente mundial, 461 km juntos.
A SOL, o Ary e os pilotos merecem. A equipe SOL gostaria de prestar um agradecimento muito especial a Cláudio Henrique Landim de Fortaleza por todo o seu apoio durante a Expedição XCNordeste 2007.
Abraço a todos e que venham os 500km...
Até 2008...
Rafael Saladini
Recorde Mundial - 461,8Km em 14.11.07 por Marcelo "Ceceu" Prieto, Rafael Saladini "Sardinha" e Frank Brown - SOL Tracer 11.
Fonte: SOL Paragliders